11 fevereiro, 2017

Dança

A dança faz apelo ao corpo silencioso que habita toda a vida num outro corpo que precede - num outro corpo que já não existe. A dança faz apelo ao corpo de antes da linguagem (ao corpo originário, ao corpo ovular, ao corpo embrionário, ao corpo fetal, ao corpo natal, ao corpo infantil). Au corpo de antes do eu. Ao corpo de antes da posição sujeito. Ao corpo de antes do rosto. Ao corpo de antes do espelho. Ao corpo de antes da pele. Ao corpo de antes da luz.

Pascal Quignard,
L’Origine de la Danse, 2013, p.76.

https://www.youtube.com/watch?v=S28-OgVDAek
[de sete poemas da solenidade e um requiem]

7
Neste dia meu amor
os meus dedos são o candelabro que te ilumina
o único existente.
E o homem
sua esfera perdida em mãos alheias
é o objecto de malabarismo
o insecto
voltejando cega a luz que lhe irradiam
o límpido cristal corrompido
o defunto.
E este patíbulo onde o próprio carrasco se enforcará
eu o digo
será erguido como símbolo de todos os homens.
Aqui a hora vai sendo longínqua meu amor e solene.
O caminho é grande o tempo tão pouco
tenhamos muita esperança e muito ódio
e vítreas flores a ornar o teu cabelo
porque serei o homem para as transportar
e tu a última mulher que as aceitará.
E enquanto assim for
erguer-se-á a nuvem de múltiplas estrelas
a nebulosa
que dizem estar a milhões de anos-luz
mas não acreditemos bem o sabes
porque a verdade a temos em nossas próprias mãos
oculta para a contemplarmos agora.

carlos eurico da costa

10 fevereiro, 2017

Área Branca / 55

Penso a minha vida
no âmago das imagens.
Nas esferas dos jacarandás
que borbotam de flores e folhas.
Nesse alpendre de buganvília.
Crio o hábito de possuir
os elementos naturais que vão
comigo para as jornadas interiores através das ruas.
Estas flores que florescem
simultaneamente na primavera
e se acumulam nos parques
cativam-me. Somo-as a todas
as outras com que sonho.
As vivências que guardo
ciosamente para ampliar
as minhas visões. Rosinhas
claras e minúsculas nas sebes.
(...)

Fiama Hasse Pais Brandão
Admirar a Natureza e não admirar a mulher que é a sua obra mais bela e não a admirar, querendo-a, em tudo que ela é, espírito e corpo, é ser um poeta que faltou, na sua alma, à amplitude do mundo.
Agostinho da Silva

08 fevereiro, 2017

Vivo Numa Outra Terra 

Contigo, na nossa terra
quisera eu bailar
contigo, eu trocara a jura 
de a gente se amar
contigo, na nossa terra
quisera eu viver
mas vivo numa outra terra
a trabalhar
e a ganhar
p'ra viver
e a viver
p'ra ganhar 


Eu sei que na minha terra
há gente a lutar
quisera eu estar lá com eles
sem ter que emigrar
mas tanto atirei semente
sem ter colher
que pedi um passaporte
para emigrar
e ganhar
p'ra viver
e viver
p'ra ganhar 

Eu fui lavar saudades ao Tejo
a aguinha doce deu-me logo um beijo
eu fui lavar saudades ao Douro
abraços desses valem mais do que ouro 

Aqui em terra distante
vivo mal e bem
sinto saudades imensas
de quem me quer bem
tenho um salário melhor
não há que duvidar
mas era na minha terra
que eu queria estar
e ganhar
p'ra viver
e não ter
que emigrar
(...)

07 fevereiro, 2017

Cultura permanente
Um olhar sobre as pequenas coisas

Antes de falar nos últimos dias da Tullyquilly House, quero-vos entrar em detalhe do que é para mim, neste momento a permacultura.
Terei que recuar, ou remeter para outros o que em mim habita e o significado que para mim tem essa cultura permanente.
A meu ver e sem grande rodeios, saber interagir e conhecer o meio, onde pretendemos habitar, construir, semear, colher e partilhar, é um dos princípios da subsistência, da sobrevivência ou da interação natural da nossa condição com as que nos envolvem.
Olhar às fases da lua, reconhecer cada estação, a importância das sobras, da exposição do sol, ou a orientação dos pontos cardeais, são naturais referências energéticas do nosso dia a dia, que por vezes nos esquecemos na nossa vida. As pequenas coisas. Quanto mais olhar para o solo, a micro fauna ai existente e a sua importância para as culturas agrícolas. Eco sistema, onde interagimos e vivemos, que importância têm, como respeitar, conhecer e cohabitar?


Algo que os meus avós e outras tantas ancestrais almas harmoniosas, foram praticando por necessidade e naturalidade, para tirar o melhor partido da terra e para si mesmo. Para vencer a fome e contrariar pobreza dos solos, necessidades humanas de sobrevivência.
Claro que com o meu percurso de vida, o estudo da macrobiótica, agricultura biológica, interesse pela biodinâmica e a leitura do Masanobu Fukuoca, interligaram tudo e ajudaram a fazer sentido.
Nós somos o que comemos”, dai importar muito o que comemos e sabermos de onde vêm as coisas. Já à algum tempo que semear, cuidar, colher, é um ato de cuidar de mim, é um ato meditativo e de rejuvenescimento. Talvez tenha sido esta a maior herança que recebi dos meus antepassados. A simplicidade de olhar para a terra sem proveito fácil, com generosidade e equilíbrio, permitindo-me interagir nos eco-sistemas que se interligam, de forma natural.


Foi um pouco disto que tentei transmitir ao Stewart. Saber observar e interagir em harmonia com o meio. Claro que ao empirismo, importa anexar pesquisa e conceitos técnicos. A constituição, equilíbrio do solo, são fundamentais para uma boa nutrição, assim como a consociação e rotatividade de culturas. Conhecer as pragas, fungos e auxiliares naturais, ajuda numa primeira fase, até que o “teu” ecosistema encontre um equilíbrio entre as partes. A nós, cabe-nos observar, nutrir, potencializar a natureza, de forma leve e equilibrada.

Observei a área. Coordenadas, pontos de água, área selvagem, área para cultivo, espaço, materiais, solo, árvores existentes, o que o Stewart pretendia, que investimento queria fazer. Estudei o clima e o tipo de culturas habituais. Esbocei um plano, o que considerava ser apropriado do geral para o particular. O que tinha, poderia arranjar e o que não havia disponibilidade. Sítio para abrigo de auxiliares, compostagem, estufa (produção e sementeira), flora auxiliar, culturas a considerar, consociações, etc. Voltei a pegar em lápis de cor, os que haviam e desenhei. Deixei parte do projeto nas mãos do Stewart, mas foi bom esta observação, interação e partilha.


São estes os meus princípios permanentes e que tento aplicar no meu dia a dia, que me foram transmitidos.

Partilho-vos também os princípios da permacultura.

Continuarei nesta pesquisa, empírica mas também técnica, para que seja cada vez mais leve e menos intrusivo neste grande eco sistema que é Natureza.


a.tereso

06 fevereiro, 2017

fata morgana
(…)
Estar vestido de branco deste homem é evidente que nunca voltará a ser
encontrado
Depois o choque duma lança contra um elmo aqui o músico fez maravilhas
É toda a razão que se vai quando podia soar a hora sem que tu estejas
presente
Nas sombras do cenário permite-se ao povo contemplar os grandes festins
Comer em cena é sempre do agrado geral
De dentro da empada rematada a faisões
Anões metade pretos metade arco-íris levantam a tampa
E soltam-se ajaezados de guizos e de risos
Brilho contrastado de vestígios de tiros das côdeas sobrastes
Plano sequência do baile dos Ardentes flash-back desfocado do episódio que
vem logo a seguir ao do cervo
Um homem talvez ágil demais desce do alto das torres de Notre-Dame
A rodopiar numa corda
Seu pêndulo de archotes clarão insólito à luz do dia
A sarça dos cinco selvagens quatro deles cativos um do outro o sol de plumas
O duque d’Orléans segura o facho a mão a mão fatal
Às oito horas da noite tempos depois a mão
Não esquece a brincar com a luva
A mão a luva uma vez duas vezes três vezes
A um canto com o palácio mais branco em fundo as belas feições ambíguas de
Pedro de Luna a cavalo
Personificando o segundo luminar
Acabar sobre o brasão da rainha em lágrimas
A mágoa Nada mais me é nada nada me é mais nada
Sim sem ti
O sol

andre breton