24 fevereiro, 2017

DIZ-ME COISAS BUNITAS

Diz-me coisas bunitas
Sussurradas ao ouvido com sabor
Chego mais perto, dá me amor
É o caminho mais certo
Entra por baixo da pele
Acende a luz no meu peito
Embala-me o coração
Encontra-me a pulsação
(...)
Sara Tavares 
hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...

Al Berto, in O Medo

20 fevereiro, 2017

Sob o céu de Glasgow
jardins e hortas comunitárias

Após a Irlanda do Norte, fui desembarcar a Glasgow, Escócia. Nunca tive muitos planos para cá vir, mas estando por perto, acabei por fazer contactos e encontrar pontos de interesse. Claro está, que as referências às paisagens “brutais” escocesas sempre me deixaram água na boa e fizeram com que os planos também se ajustassem. A ver vamos o que isto dá.
Tinha feito um contacto no final do ano passado, por referência de uma amiga, a uma permacultora com muita experiência que residia em Glasgow. Voltei a contactar a Abi Mordin no início do ano a dizer que estava por perto e ela abriu-me as portas de casa. Ai fiquei uns dias para a conhecer, conhecer os seus projetos e conhecer Glasgow.


Foram dias calmos, de partilha e conhecimento. Falou-me dos seus projetos e tive oportunidade de visitar dois. Também houve tempo, claro, para visitar a cidade e conhecer “um pouco” mais desta cultura.



É curioso, cada vez mais as cidades me parecem iguais e com dinâmicas semelhantes. Sobretudo a cultura de rua, as zonas comerciais e centrais. Valha-nos os pormenores, os museus e algo que ainda nos transmite identidade e cultura local.



Deixo-vos então imagens, cores, de dias bem passados que ficam inscritos nesta viagem.

a.tereso


19 fevereiro, 2017

Eu não sou uma sonhadora. 
Só devaneio para alcançar a realidade.
Clarice Lispector

17 fevereiro, 2017

Espuma dos dias,
calçada dos gigantes (Causeway Coast)

Uma das coisas que mais me marcou na Irlanda (Norte) foi não existir enxadas para cavar e existirem ovelhas sem mais não. Tudo o demais me parece plausível neste contexto e no mundo onde vivemos.
Algo ainda muito presente é a presença da guerra (The Troubles)  que decorreu na segunda metade do século XX, pelos murais, pelas marcas de armas e relevância desse momentos em museus e nas pessoas. Tratou-se numa guerra civil, em primeiro lugar, da população protestante (maioria), em favor de preservar os laços com a Grã-Bretanha, e do outro lado a população católica (minoria), em favor da independência ou a integração da província com a República da Irlanda. Apesar de já não se sentir esses muros de outrora, o Brexit veio criar novos burburinhos não só por aqui, mas em todo Reino Unido, pela falta de palavra que os países ditos secundários não tem tido.
Relativamente às ovelhas, é impressionante tanto o verde, como a sua presença na paisagem. Questionei-me muitas vezes por quê ter tantos animais e não ter quase produção de vegetais e cereais! Será só por causa do tempo enquanto estado climatérico? Será por herança e sempre foi assim? Ou será por perda de identidade, comodismo e subjugação ao sistema capitalista? Não sei dizer por certo, mas incomoda-me sentir esta subjugação, esta perda de memória e identidade.



Visitei Belfast de passagem e Derry por oportunidade. Tudo sem grandes planos e por acabar por acontecer. A viagem tem sido um pouco assim. Tenho muitos locais identificados, de interesse mas tenho tudo aberto, com dinamismo e passível de se concretizar.
Permaneci e descobri Derry pela companhia, amizade e gosto que é ter a Mara por perto. Foi ela que me desafiou a partilhar-mos um pouco mais de nós e eu aceitei. Importa partilhar intimidade, amizade e muitas vezes sair de encontros ocasionais, de olás à distância e de momentos pontuais. Os silêncios importam, mas por vezes a presença sensorial acrescenta calor. Passamos uma semana bem passada. Entre cozinhados, partilhas, risos, filmes e caminhadas.



A maior aventura foi o passeio a 
Causeway Coast, área de uma imensidão paisagística brutal, onde a terra vulcânica se deixa penetrar pelo mar, ou quiçá seja o contrário. Parte deixo-vos em imagens, mas o intangível fica nos pequenos gestos, momentos, coisas que a objetiva, as palavras não permitem alcançar. É esta a espuma dos dias!
a.tereso

15 fevereiro, 2017

É na solidão da noite

É na solidão da noite
Quando o olhar vaga incerto
Que me descubro em teu destino
É no silêncio da madrugada insone
Quando nada mais me chama
Que meu corpo te pronuncia
E meu coração confidencia a tua falta
É no deambular do pensamento
Que a minha saudade regressa a ti
E despido de todos os segredos
Meu corpo abraça a tua ausência
É no suspiro do amor que fulge
No meneio do desejo, sem qualquer receio
Na nudez do confessar-te tua
Que meu olhar te oferece ao meu sonho.

Pablo Neruda

13 fevereiro, 2017

A fuga do tempo
Tullyquilly House até já

Já não escrevo estas palavras no seu tempo e quiçá não o recupere. Estou em simultâneo no passado e presente. Isto faz com que a realidade, o momento se perca e seja transformado. Já estou com uma ideia ausente e longínqua do que sucedeu. Já será um julgamento, uma observação de um tempo/ período que passou e não volta mais. Apesar disso, escrevo e pretendo ficar no tempo. Neste em que agora vivo.
A vida é uma constante celebração, ou será este um dos bens maiores princípios da vida. Os últimos dias na Tullyquilly House foram então de celebração. Celebração do encontro, do momento em que cada um vive e dos objetivos que cada um se propôs cumprir e que se cruzam num todo, quer queiramos ou não.
Cumpri-me, cumpriu-se e enraizou-se silêncios. Houve um momento em que nos confrontamos, talvez para que a realidade se cumprisse e todos pudessem sair mais fortes. Foi aquando um dos afazeres na floresta. Transplante de árvores. Algo que considero sagrado, íntimo e de alguma responsabilidade. O objetivo era replantar árvores, sem ter grande consideração por elas. Ofereci então e parte do meu tempo para que o trabalho fosse feito com mais coração e não só fazer por fazer e daqui a uns anos cortar as árvores. Não estava feliz com que estava a fazer e disse. A vida tem significada para tudo e para todos. Uma árvore é uma vida, é húmus, é ar, sombra, energia, um abrigo, um poleiro, etc..
Sei que nestes tempos, por estar por vezes “longe”, longe de mim, que estou mais sensível, mais frágil. Também um pouco pela ausência de açúcar, que sempre que posso afasto, conscientemente mas que interfere inconscientemente comigo.
Nos últimos dias, subia à montanha mais alta da Irlanda do Norte. Não que fizesse questão, pois para mim por vezes “a melhor vista é a meia encontra”, mas por estar em conjunto com alguém que queria muito esse desafio. Gelei, digo-vos, passei um bocado mal por não ir preparado para tal. Fiquei com as mãos como nunca tinha ficado. Mas deu para me sentir humano, real e isso foi bom. Por vezes endeuso-me e fico na minha retórica.
Ficam tantas outras coisas por contar, as pequenas coisas. Os pores do sol, o acender e estar à lareira, o pão quente diário, ou a simples companhia diária dos Robins. Os olhares e os silêncios, mas esses começam a ser integrantes, quando as palavras ganham insignificância, sejam elas em que língua.

Um até já...

a.tereso