08 março, 2017

O QUE EU SEI NA MEDULA DOS MEUS OSSOS
Não é nossa missão consertar o mundo inteiro de uma vez,
mas nos esforçarmos para reparar a parte do mundo
que está ao nosso alcance.
Qualquer coisa, mesmo sutil ou pequena,
que uma alma possa fazer para ajudar outra alma,
dando assistência a alguma parte deste pobre mundo sofrido,
ajudará imensamente.
O que é necessário para uma mudança dramática
é o acúmulo de ações.
Mais, mais, e mais....continuamente...
Sabemos que não são necessárias todas as pessoas da Terra
para trazer justiça e paz,
Mas apenas um pequeno e determinado grupo
que não desistirá durante a primeira, a segunda ou a centésima tempestade.
Uma das ações mais pacíficas e poderosas para intervir
num mundo tempestuoso é ficar firme e mostrar sua alma.
A alma brilha como ouro em tempos escuros.
A luz da alma atira centelhas, envia labaredas,
manda sinais de fogo e incendeia as outras.
Mostrar a lanterna da alma em tempos sombrios como estes
Ser ao mesmo tempo implacável e misericordiosa,
Ambos são atos de imensa bravura e enorme necessidade.
As almas que lutam recebem luz de outras almas
que estão completamente acesas e dispostas a iluminar o caminho.
Se você conseguir apenas acalmar um tumulto (externo ou interno),
já será uma das coisas mais poderosas que poderá fazer.
Sempre há momentos em que nos sentimos desencorajadas.
Eu também sinto desespero muitas vezes em minha vida,
mas não lhe ofereço um assento; eu não o entretenho,
Não permito que coma do meu prato.
A razão é simples.
Na medula dos meus ossos eu sei algo que você também sabe:
Que não pode haver desespero quando
você se lembra por que veio para a Terra,
a Quem você serve e Quem te mandou para cá.
As boas palavras que dizemos
E as boas ações que realizamos não são nossas.
Elas são as palavras e as ações Daquela que nos trouxe aqui.

Clarissa Pinkola Estés

03 março, 2017

Rotação

É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe
[de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou. MAS
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.


Nuno Júdice
o tímpano e a pupila

Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.

luís miguel nava

02 março, 2017

É por ti que escrevo

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajetória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso
 


António Ramos Rosa, in “O Teu Rosto”
"A dimensão da tua felicidade depende da dimensão da liberdade que habita o teu coração"

Thich Nhat Hanh

24 fevereiro, 2017

DIZ-ME COISAS BUNITAS

Diz-me coisas bunitas
Sussurradas ao ouvido com sabor
Chego mais perto, dá me amor
É o caminho mais certo
Entra por baixo da pele
Acende a luz no meu peito
Embala-me o coração
Encontra-me a pulsação
(...)
Sara Tavares 
hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...

Al Berto, in O Medo