16 março, 2017

CANÇÃO MÍNIMA

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.


Cecília Meireles

14 março, 2017

O BEIJO DE RODIN

não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença
e leves contradições sem alarme e gafanhotos.
não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.

Sylvia Beirute
Este Não-Futuro que a Gente Vive

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.

Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"

12 março, 2017

KRISHNA ECO FARM
O primeiro grande desafio

Após estar uns dias em Glasgow, passei 19 dias em Lesmagow na Krishna Eco Farm. Nunca se sabe o que se vai encontrar e por mais que não se queira fazer grandes expetativas, a mente deambula sempre para encontrar pontos incidentes. A curiosidade antes de mais, era saber como vivia uma comunidade espiritual, como se organizava e conciliava o seu dia a dia com o mundo terreno.
Talvez seja esse o meu problema. Criar expectativas, construir conceitos e ideias antes de iniciar. Talvez esse princípio de presente esteja distante e seja difícil de concretizar ainda. É por isso que decidi escrever após a minha estadia, para que fosse respeitante com as premissas e esse presente (ausente).
Claro que a experiência foi muito enriquecedora e permitiu-me ouvir-me uma vez mais. Andamos todos a tentar encontrar estratégias de vida que nos aproximem mais de nós e do divino. Seja qual for o caminho escolhido.
Antes de ir, pouco conhecia do movimento Krishna e o que me vinha à cabeça era de ver pessoas a cantar e dançar na rua. Agora que sai, ainda pouco sei sobre a filosofia para questionar ou glorificar, mas ficou a curiosidade de aprofundar este sistema de vida. Claro está que apreendi o modus vivendi desta comunidade, mas prefiro ser eu a interpretá-lo por mim, através das escrituras.



Escolho os locais pelo tipo de projeto, mas algo tem pesado bastante, se tem uma alimentação vegetariana. Este era o único local na Escócia na rede com este modelo de alimentação. E de facto, tem sido a alimentação a maior dificuldade, muitas vezes por não existir estrutura nutricional e balanço nas refeições. Se até aqui pude ter interferência, neste projeto limitava-me a sentar e comer. Comida como se tivesse na índia, com os mesmos temperos e simplicidade e quase sempre a mesma! Arroz e curry de lentilhas!
A minha maior dificuldade foi não perceber onde a vida espiritual se interligava com a vida terrena, no dia a dia. Foi perceber que o princípio comunitário muitas vezes não vai para além do Templo. Foi perceber que o conceito ECO, de sustentabilidade não está enraizado e pouco prevalece nas refeições. Foi entender que muitas vezes ter meios, não dá a força e produz à ação. Claro está, tendo em conta que estas minhas observações serão redutoras e exageradas. Que possivelmente o inverno condiciona este interligar e que o pouco que se faz é um passo grande no objetivo geral.
Os primeiros dias foram difíceis por perceber que as tarefas estavam delineadas com uma estrutura desorganizada, sem grande preocupação, objetivos e visão global. Esperei para ver, para conhecer os intervenientes, para ter a leitura geral do sítio, das pessoas e da filosofia vigente. Fui dando-me a cada dia, do meio jeito, com atitude e prática.
Conto-vos algo que mudou a minha vida à uns tempos (muito antes de vir). Pensei: se despendo energia e tempo numa ação, quero que esse intuito, esse momento seja bem empregue, por inteiro e integro. A importância do detalhe, das pequenas coisas. É com esse espirito que parto para o que quer que seja. Limpar a casa, cozinhar, cuidar da horta, estar com pessoas....
Conto-vos que a primeira vez que limpei a carrinha (o meu pai que não saiba, uma vez que pouco cuidado tinha com a limpeza do meu carro) e a casa (ashram masculino), grande parte das pessoas vieram-me dar os parabéns.
Nos primeiros dias na horta fiz análise do solo, das condições que tinham, tentei perceber se o estado climatérico era similar ao do Irlanda do Norte, objetivos, etc.. Após isso indiquei possibilidades, dei estratégias, possibilitei troca de ideias e pesquisa. Passei a ser venerado por sugerir, por fazer pensar, por fazer e agir... Muitas vezes esse é o meu principal objetivo, que as pessoas pensem por elas e dêem intuito ao que fazem. Possam pesquisar e saber mais, de modo a que a acção, o tempo seja bem empregue e em benefício global (natureza).


Muito havia por contar da minha intensidade dos dias. Os detalhes ficam para mim e para quem os viveu. Dou esta experiência como bem empregue, enriquecedora e única. O que me ri e me vou rir à conta desta experiência. Quantas vezes cantei “HARE KRISHNA, HARE KRISHNA, KRISHNA KRISHNA, HARE HARE, HARE RAMA, HARE RAMA, RAMA RAMA, HARE HARE”.

Que se continue no encontro do espiritual, de braços dados com a Mãe TERRA. No ultimo dia, o Charanga chegou junto a mim com um desenho/ plano da horta, com um pequeno esquema de consociações, cheio de design... e é isso que me faz continuar a acreditar.

a.tereso

08 março, 2017

O QUE EU SEI NA MEDULA DOS MEUS OSSOS
Não é nossa missão consertar o mundo inteiro de uma vez,
mas nos esforçarmos para reparar a parte do mundo
que está ao nosso alcance.
Qualquer coisa, mesmo sutil ou pequena,
que uma alma possa fazer para ajudar outra alma,
dando assistência a alguma parte deste pobre mundo sofrido,
ajudará imensamente.
O que é necessário para uma mudança dramática
é o acúmulo de ações.
Mais, mais, e mais....continuamente...
Sabemos que não são necessárias todas as pessoas da Terra
para trazer justiça e paz,
Mas apenas um pequeno e determinado grupo
que não desistirá durante a primeira, a segunda ou a centésima tempestade.
Uma das ações mais pacíficas e poderosas para intervir
num mundo tempestuoso é ficar firme e mostrar sua alma.
A alma brilha como ouro em tempos escuros.
A luz da alma atira centelhas, envia labaredas,
manda sinais de fogo e incendeia as outras.
Mostrar a lanterna da alma em tempos sombrios como estes
Ser ao mesmo tempo implacável e misericordiosa,
Ambos são atos de imensa bravura e enorme necessidade.
As almas que lutam recebem luz de outras almas
que estão completamente acesas e dispostas a iluminar o caminho.
Se você conseguir apenas acalmar um tumulto (externo ou interno),
já será uma das coisas mais poderosas que poderá fazer.
Sempre há momentos em que nos sentimos desencorajadas.
Eu também sinto desespero muitas vezes em minha vida,
mas não lhe ofereço um assento; eu não o entretenho,
Não permito que coma do meu prato.
A razão é simples.
Na medula dos meus ossos eu sei algo que você também sabe:
Que não pode haver desespero quando
você se lembra por que veio para a Terra,
a Quem você serve e Quem te mandou para cá.
As boas palavras que dizemos
E as boas ações que realizamos não são nossas.
Elas são as palavras e as ações Daquela que nos trouxe aqui.

Clarissa Pinkola Estés

03 março, 2017

Rotação

É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe
[de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou. MAS
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.


Nuno Júdice
o tímpano e a pupila

Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.

luís miguel nava

02 março, 2017

É por ti que escrevo

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajetória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso
 


António Ramos Rosa, in “O Teu Rosto”
"A dimensão da tua felicidade depende da dimensão da liberdade que habita o teu coração"

Thich Nhat Hanh

24 fevereiro, 2017

DIZ-ME COISAS BUNITAS

Diz-me coisas bunitas
Sussurradas ao ouvido com sabor
Chego mais perto, dá me amor
É o caminho mais certo
Entra por baixo da pele
Acende a luz no meu peito
Embala-me o coração
Encontra-me a pulsação
(...)
Sara Tavares 
hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar...

Al Berto, in O Medo

20 fevereiro, 2017

Sob o céu de Glasgow
jardins e hortas comunitárias

Após a Irlanda do Norte, fui desembarcar a Glasgow, Escócia. Nunca tive muitos planos para cá vir, mas estando por perto, acabei por fazer contactos e encontrar pontos de interesse. Claro está, que as referências às paisagens “brutais” escocesas sempre me deixaram água na boa e fizeram com que os planos também se ajustassem. A ver vamos o que isto dá.
Tinha feito um contacto no final do ano passado, por referência de uma amiga, a uma permacultora com muita experiência que residia em Glasgow. Voltei a contactar a Abi Mordin no início do ano a dizer que estava por perto e ela abriu-me as portas de casa. Ai fiquei uns dias para a conhecer, conhecer os seus projetos e conhecer Glasgow.


Foram dias calmos, de partilha e conhecimento. Falou-me dos seus projetos e tive oportunidade de visitar dois. Também houve tempo, claro, para visitar a cidade e conhecer “um pouco” mais desta cultura.



É curioso, cada vez mais as cidades me parecem iguais e com dinâmicas semelhantes. Sobretudo a cultura de rua, as zonas comerciais e centrais. Valha-nos os pormenores, os museus e algo que ainda nos transmite identidade e cultura local.



Deixo-vos então imagens, cores, de dias bem passados que ficam inscritos nesta viagem.

a.tereso


19 fevereiro, 2017

Eu não sou uma sonhadora. 
Só devaneio para alcançar a realidade.
Clarice Lispector

17 fevereiro, 2017

Espuma dos dias,
calçada dos gigantes (Causeway Coast)

Uma das coisas que mais me marcou na Irlanda (Norte) foi não existir enxadas para cavar e existirem ovelhas sem mais não. Tudo o demais me parece plausível neste contexto e no mundo onde vivemos.
Algo ainda muito presente é a presença da guerra (The Troubles)  que decorreu na segunda metade do século XX, pelos murais, pelas marcas de armas e relevância desse momentos em museus e nas pessoas. Tratou-se numa guerra civil, em primeiro lugar, da população protestante (maioria), em favor de preservar os laços com a Grã-Bretanha, e do outro lado a população católica (minoria), em favor da independência ou a integração da província com a República da Irlanda. Apesar de já não se sentir esses muros de outrora, o Brexit veio criar novos burburinhos não só por aqui, mas em todo Reino Unido, pela falta de palavra que os países ditos secundários não tem tido.
Relativamente às ovelhas, é impressionante tanto o verde, como a sua presença na paisagem. Questionei-me muitas vezes por quê ter tantos animais e não ter quase produção de vegetais e cereais! Será só por causa do tempo enquanto estado climatérico? Será por herança e sempre foi assim? Ou será por perda de identidade, comodismo e subjugação ao sistema capitalista? Não sei dizer por certo, mas incomoda-me sentir esta subjugação, esta perda de memória e identidade.



Visitei Belfast de passagem e Derry por oportunidade. Tudo sem grandes planos e por acabar por acontecer. A viagem tem sido um pouco assim. Tenho muitos locais identificados, de interesse mas tenho tudo aberto, com dinamismo e passível de se concretizar.
Permaneci e descobri Derry pela companhia, amizade e gosto que é ter a Mara por perto. Foi ela que me desafiou a partilhar-mos um pouco mais de nós e eu aceitei. Importa partilhar intimidade, amizade e muitas vezes sair de encontros ocasionais, de olás à distância e de momentos pontuais. Os silêncios importam, mas por vezes a presença sensorial acrescenta calor. Passamos uma semana bem passada. Entre cozinhados, partilhas, risos, filmes e caminhadas.



A maior aventura foi o passeio a 
Causeway Coast, área de uma imensidão paisagística brutal, onde a terra vulcânica se deixa penetrar pelo mar, ou quiçá seja o contrário. Parte deixo-vos em imagens, mas o intangível fica nos pequenos gestos, momentos, coisas que a objetiva, as palavras não permitem alcançar. É esta a espuma dos dias!
a.tereso

15 fevereiro, 2017

É na solidão da noite

É na solidão da noite
Quando o olhar vaga incerto
Que me descubro em teu destino
É no silêncio da madrugada insone
Quando nada mais me chama
Que meu corpo te pronuncia
E meu coração confidencia a tua falta
É no deambular do pensamento
Que a minha saudade regressa a ti
E despido de todos os segredos
Meu corpo abraça a tua ausência
É no suspiro do amor que fulge
No meneio do desejo, sem qualquer receio
Na nudez do confessar-te tua
Que meu olhar te oferece ao meu sonho.

Pablo Neruda

13 fevereiro, 2017

A fuga do tempo
Tullyquilly House até já

Já não escrevo estas palavras no seu tempo e quiçá não o recupere. Estou em simultâneo no passado e presente. Isto faz com que a realidade, o momento se perca e seja transformado. Já estou com uma ideia ausente e longínqua do que sucedeu. Já será um julgamento, uma observação de um tempo/ período que passou e não volta mais. Apesar disso, escrevo e pretendo ficar no tempo. Neste em que agora vivo.
A vida é uma constante celebração, ou será este um dos bens maiores princípios da vida. Os últimos dias na Tullyquilly House foram então de celebração. Celebração do encontro, do momento em que cada um vive e dos objetivos que cada um se propôs cumprir e que se cruzam num todo, quer queiramos ou não.
Cumpri-me, cumpriu-se e enraizou-se silêncios. Houve um momento em que nos confrontamos, talvez para que a realidade se cumprisse e todos pudessem sair mais fortes. Foi aquando um dos afazeres na floresta. Transplante de árvores. Algo que considero sagrado, íntimo e de alguma responsabilidade. O objetivo era replantar árvores, sem ter grande consideração por elas. Ofereci então e parte do meu tempo para que o trabalho fosse feito com mais coração e não só fazer por fazer e daqui a uns anos cortar as árvores. Não estava feliz com que estava a fazer e disse. A vida tem significada para tudo e para todos. Uma árvore é uma vida, é húmus, é ar, sombra, energia, um abrigo, um poleiro, etc..
Sei que nestes tempos, por estar por vezes “longe”, longe de mim, que estou mais sensível, mais frágil. Também um pouco pela ausência de açúcar, que sempre que posso afasto, conscientemente mas que interfere inconscientemente comigo.
Nos últimos dias, subia à montanha mais alta da Irlanda do Norte. Não que fizesse questão, pois para mim por vezes “a melhor vista é a meia encontra”, mas por estar em conjunto com alguém que queria muito esse desafio. Gelei, digo-vos, passei um bocado mal por não ir preparado para tal. Fiquei com as mãos como nunca tinha ficado. Mas deu para me sentir humano, real e isso foi bom. Por vezes endeuso-me e fico na minha retórica.
Ficam tantas outras coisas por contar, as pequenas coisas. Os pores do sol, o acender e estar à lareira, o pão quente diário, ou a simples companhia diária dos Robins. Os olhares e os silêncios, mas esses começam a ser integrantes, quando as palavras ganham insignificância, sejam elas em que língua.

Um até já...

a.tereso

11 fevereiro, 2017

Dança

A dança faz apelo ao corpo silencioso que habita toda a vida num outro corpo que precede - num outro corpo que já não existe. A dança faz apelo ao corpo de antes da linguagem (ao corpo originário, ao corpo ovular, ao corpo embrionário, ao corpo fetal, ao corpo natal, ao corpo infantil). Au corpo de antes do eu. Ao corpo de antes da posição sujeito. Ao corpo de antes do rosto. Ao corpo de antes do espelho. Ao corpo de antes da pele. Ao corpo de antes da luz.

Pascal Quignard,
L’Origine de la Danse, 2013, p.76.

https://www.youtube.com/watch?v=S28-OgVDAek
[de sete poemas da solenidade e um requiem]

7
Neste dia meu amor
os meus dedos são o candelabro que te ilumina
o único existente.
E o homem
sua esfera perdida em mãos alheias
é o objecto de malabarismo
o insecto
voltejando cega a luz que lhe irradiam
o límpido cristal corrompido
o defunto.
E este patíbulo onde o próprio carrasco se enforcará
eu o digo
será erguido como símbolo de todos os homens.
Aqui a hora vai sendo longínqua meu amor e solene.
O caminho é grande o tempo tão pouco
tenhamos muita esperança e muito ódio
e vítreas flores a ornar o teu cabelo
porque serei o homem para as transportar
e tu a última mulher que as aceitará.
E enquanto assim for
erguer-se-á a nuvem de múltiplas estrelas
a nebulosa
que dizem estar a milhões de anos-luz
mas não acreditemos bem o sabes
porque a verdade a temos em nossas próprias mãos
oculta para a contemplarmos agora.

carlos eurico da costa

10 fevereiro, 2017

Área Branca / 55

Penso a minha vida
no âmago das imagens.
Nas esferas dos jacarandás
que borbotam de flores e folhas.
Nesse alpendre de buganvília.
Crio o hábito de possuir
os elementos naturais que vão
comigo para as jornadas interiores através das ruas.
Estas flores que florescem
simultaneamente na primavera
e se acumulam nos parques
cativam-me. Somo-as a todas
as outras com que sonho.
As vivências que guardo
ciosamente para ampliar
as minhas visões. Rosinhas
claras e minúsculas nas sebes.
(...)

Fiama Hasse Pais Brandão
Admirar a Natureza e não admirar a mulher que é a sua obra mais bela e não a admirar, querendo-a, em tudo que ela é, espírito e corpo, é ser um poeta que faltou, na sua alma, à amplitude do mundo.
Agostinho da Silva