20 março, 2017

O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz —
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

Mensagem, Fernando Pessoa 


"O culto do espírito (ou do Espírito Santo, na filosofia cristã) nada mais é que o conhecimento interno de cada um, como ser espiritual. Como expliquei num outro post, cada religião tem um lado esotérico (de conhecimento interno), chamada de misticismo. Este é o conhecimento que, posteriormente, dá origem à religião (que é feita para as massas). Dizemos, então, que a religião é o lado exotérico do misticismo e o misticismo o lado esotérico da religião. Ora o esoterismo, ou conhecimento esotérico, nada mais é que o conhecimento do universo interno de cada um. O conhecimento místico das religiões raramente difere, de forma significativa, de umas para as outras, tentando sempre explicar o universo através do auto-conhecimento.
A missão de Portugal é a de elevar-se espiritualmente, criando massa crítica para levar luz aos restantes povos, de modo a elevar os espíritos e ensinar uma outra maneira de viver. Para tal, terá de dar a conhecer os mistérios sagrados da essência humana e, então, abrir a porta para uma nova (antiga) espiritualidade.
O Quinto Império tem como natureza abrir as portas do mundo para uma nova espiritualidade, dando assim, o próximo passo na evolução humana. Ele propõe-se guiar o mundo para um novo nível de espiritualidade, seguindo o desenvolvimento interno. E este é o trabalho, ou missão, que Portugal tem pela frente. Não uniformizando, mas aceitando as diferenças entre os mistérios (místicos) e demonstrando que todos eles são válidos e que podem ser usados para o auto-conhecimento de cada indivíduo.
Depois de cumprido o culto do Pai (Antigo Testamento), cumpriu-se o do Filho (Novo Testamento)…cumpra-se, então agora, a Trindade com o culto do Espírito Santo."
Irene

Saudade, eu te matei de fome
E tarde, eu te enterrei com a mágoa
Se hoje eu já não sei teu nome
Teu rosto nunca me deu trégua
Milagre seria não ver
No amor, essa flor perene
Que brota na lua negra
Que seca, mas nunca morre
Verdade, eu te cerquei de longe
E tarde, eu encostei no medo
Se ontem eu cantei teu nome
O eco já não morre cedo
Milagre seria não ter
O amor, essa rima breve
Que o brilho da lua cheia
Acorda de um sono leve
Irene

Rodrigo Amarante

16 março, 2017

A Idealização do Amor

Eu estava a pensar na forma como se poderá entender o amor, à luz da minha formação. Da minha perspectiva, depende daquilo que o outro representa, se o outro é um prolongamento nosso, é uma parte nossa, como acontece muitas vezes, ou é uma idealização do eu de que falaria o Freud. No sentido psicanalítico poder-se-ia dizer que o amor corresponde ao eu ideal e, portanto, à procura de qualquer coisa de ideal que nós colocamos através de um mecanismo de identificação projectiva no outro. 
Portanto, à luz de uma perspectiva científica, como é apesar de tudo a psicanalítica, o problema começa a pôr-se de uma forma um bocado diferente. Nesse sentido e na medida em que o objecto amado é sempre idealizado e nunca é um objectivo real, a gente, de facto, nunca se está a relacionar com pessoas reais, estamos sempre a relacionarmo-nos com pessoas ideias e com fantasmas. A gente vive, de facto, num mundo de fantasmas: os amigos são fantasmas que têm para nós determinada configuração, ou os pais, ou os filhos, etc. 
(...) O amor é uma coisa que tem que tem que ver de tal forma com todo um mundo de fantasmas, com todo um mundo irreal, com todo um mundo inventado que nós carregamos connosco desde a infância, que até poderá haver, eventualmente, amor sem objecto. O amor não será, assim, necessariamente, uma luta corpo a corpo, ou uma luta corporal, mas pode ter que ver realmente com outras coisas, uma idealização, um desejo de encontrar qualquer coisa de perdido, nosso, que é normalmente isso que se passa, no amor neurótico, ou mesmo não neurótico. Quer dizer, é a procura de encontrarmos qualquer coisa que a nós nos falta e que tentamos encontrar no outro e nesse caso tem muito mais que ver connosco do que com a outra pessoa. Normalmente, isso passa-se assim e também não vejo que seja mau que, de facto, se passe assim. 

António Lobo Antunes, in "Diário Popular (1979)"
CANÇÃO MÍNIMA

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.


Cecília Meireles

14 março, 2017

O BEIJO DE RODIN

não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença
e leves contradições sem alarme e gafanhotos.
não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.

Sylvia Beirute
Este Não-Futuro que a Gente Vive

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.

Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"

12 março, 2017

KRISHNA ECO FARM
O primeiro grande desafio

Após estar uns dias em Glasgow, passei 19 dias em Lesmagow na Krishna Eco Farm. Nunca se sabe o que se vai encontrar e por mais que não se queira fazer grandes expetativas, a mente deambula sempre para encontrar pontos incidentes. A curiosidade antes de mais, era saber como vivia uma comunidade espiritual, como se organizava e conciliava o seu dia a dia com o mundo terreno.
Talvez seja esse o meu problema. Criar expectativas, construir conceitos e ideias antes de iniciar. Talvez esse princípio de presente esteja distante e seja difícil de concretizar ainda. É por isso que decidi escrever após a minha estadia, para que fosse respeitante com as premissas e esse presente (ausente).
Claro que a experiência foi muito enriquecedora e permitiu-me ouvir-me uma vez mais. Andamos todos a tentar encontrar estratégias de vida que nos aproximem mais de nós e do divino. Seja qual for o caminho escolhido.
Antes de ir, pouco conhecia do movimento Krishna e o que me vinha à cabeça era de ver pessoas a cantar e dançar na rua. Agora que sai, ainda pouco sei sobre a filosofia para questionar ou glorificar, mas ficou a curiosidade de aprofundar este sistema de vida. Claro está que apreendi o modus vivendi desta comunidade, mas prefiro ser eu a interpretá-lo por mim, através das escrituras.



Escolho os locais pelo tipo de projeto, mas algo tem pesado bastante, se tem uma alimentação vegetariana. Este era o único local na Escócia na rede com este modelo de alimentação. E de facto, tem sido a alimentação a maior dificuldade, muitas vezes por não existir estrutura nutricional e balanço nas refeições. Se até aqui pude ter interferência, neste projeto limitava-me a sentar e comer. Comida como se tivesse na índia, com os mesmos temperos e simplicidade e quase sempre a mesma! Arroz e curry de lentilhas!
A minha maior dificuldade foi não perceber onde a vida espiritual se interligava com a vida terrena, no dia a dia. Foi perceber que o princípio comunitário muitas vezes não vai para além do Templo. Foi perceber que o conceito ECO, de sustentabilidade não está enraizado e pouco prevalece nas refeições. Foi entender que muitas vezes ter meios, não dá a força e produz à ação. Claro está, tendo em conta que estas minhas observações serão redutoras e exageradas. Que possivelmente o inverno condiciona este interligar e que o pouco que se faz é um passo grande no objetivo geral.
Os primeiros dias foram difíceis por perceber que as tarefas estavam delineadas com uma estrutura desorganizada, sem grande preocupação, objetivos e visão global. Esperei para ver, para conhecer os intervenientes, para ter a leitura geral do sítio, das pessoas e da filosofia vigente. Fui dando-me a cada dia, do meio jeito, com atitude e prática.
Conto-vos algo que mudou a minha vida à uns tempos (muito antes de vir). Pensei: se despendo energia e tempo numa ação, quero que esse intuito, esse momento seja bem empregue, por inteiro e integro. A importância do detalhe, das pequenas coisas. É com esse espirito que parto para o que quer que seja. Limpar a casa, cozinhar, cuidar da horta, estar com pessoas....
Conto-vos que a primeira vez que limpei a carrinha (o meu pai que não saiba, uma vez que pouco cuidado tinha com a limpeza do meu carro) e a casa (ashram masculino), grande parte das pessoas vieram-me dar os parabéns.
Nos primeiros dias na horta fiz análise do solo, das condições que tinham, tentei perceber se o estado climatérico era similar ao do Irlanda do Norte, objetivos, etc.. Após isso indiquei possibilidades, dei estratégias, possibilitei troca de ideias e pesquisa. Passei a ser venerado por sugerir, por fazer pensar, por fazer e agir... Muitas vezes esse é o meu principal objetivo, que as pessoas pensem por elas e dêem intuito ao que fazem. Possam pesquisar e saber mais, de modo a que a acção, o tempo seja bem empregue e em benefício global (natureza).


Muito havia por contar da minha intensidade dos dias. Os detalhes ficam para mim e para quem os viveu. Dou esta experiência como bem empregue, enriquecedora e única. O que me ri e me vou rir à conta desta experiência. Quantas vezes cantei “HARE KRISHNA, HARE KRISHNA, KRISHNA KRISHNA, HARE HARE, HARE RAMA, HARE RAMA, RAMA RAMA, HARE HARE”.

Que se continue no encontro do espiritual, de braços dados com a Mãe TERRA. No ultimo dia, o Charanga chegou junto a mim com um desenho/ plano da horta, com um pequeno esquema de consociações, cheio de design... e é isso que me faz continuar a acreditar.

a.tereso