21 março, 2017

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles
I believe in all that has never yet been spoken

I believe in all that has never yet been spoken.
I want to free what waits within me
so that what no one has dared to wish for
may for once spring clear
without my contriving.
If this is arrogant, God, forgive me,
but this is what I need to say.
May what I do flow from me like a river,
no forcing and no holding back,
the way it is with children.
Then in these swelling and ebbing currents,
these deepening tides moving out, returning,
I will sing you as no one ever has,
streaming through widening channels
into the open sea.

by Rainer Maria Rilke

20 março, 2017

O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz —
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

Mensagem, Fernando Pessoa 


"O culto do espírito (ou do Espírito Santo, na filosofia cristã) nada mais é que o conhecimento interno de cada um, como ser espiritual. Como expliquei num outro post, cada religião tem um lado esotérico (de conhecimento interno), chamada de misticismo. Este é o conhecimento que, posteriormente, dá origem à religião (que é feita para as massas). Dizemos, então, que a religião é o lado exotérico do misticismo e o misticismo o lado esotérico da religião. Ora o esoterismo, ou conhecimento esotérico, nada mais é que o conhecimento do universo interno de cada um. O conhecimento místico das religiões raramente difere, de forma significativa, de umas para as outras, tentando sempre explicar o universo através do auto-conhecimento.
A missão de Portugal é a de elevar-se espiritualmente, criando massa crítica para levar luz aos restantes povos, de modo a elevar os espíritos e ensinar uma outra maneira de viver. Para tal, terá de dar a conhecer os mistérios sagrados da essência humana e, então, abrir a porta para uma nova (antiga) espiritualidade.
O Quinto Império tem como natureza abrir as portas do mundo para uma nova espiritualidade, dando assim, o próximo passo na evolução humana. Ele propõe-se guiar o mundo para um novo nível de espiritualidade, seguindo o desenvolvimento interno. E este é o trabalho, ou missão, que Portugal tem pela frente. Não uniformizando, mas aceitando as diferenças entre os mistérios (místicos) e demonstrando que todos eles são válidos e que podem ser usados para o auto-conhecimento de cada indivíduo.
Depois de cumprido o culto do Pai (Antigo Testamento), cumpriu-se o do Filho (Novo Testamento)…cumpra-se, então agora, a Trindade com o culto do Espírito Santo."
Irene

Saudade, eu te matei de fome
E tarde, eu te enterrei com a mágoa
Se hoje eu já não sei teu nome
Teu rosto nunca me deu trégua
Milagre seria não ver
No amor, essa flor perene
Que brota na lua negra
Que seca, mas nunca morre
Verdade, eu te cerquei de longe
E tarde, eu encostei no medo
Se ontem eu cantei teu nome
O eco já não morre cedo
Milagre seria não ter
O amor, essa rima breve
Que o brilho da lua cheia
Acorda de um sono leve
Irene

Rodrigo Amarante

16 março, 2017

A Idealização do Amor

Eu estava a pensar na forma como se poderá entender o amor, à luz da minha formação. Da minha perspectiva, depende daquilo que o outro representa, se o outro é um prolongamento nosso, é uma parte nossa, como acontece muitas vezes, ou é uma idealização do eu de que falaria o Freud. No sentido psicanalítico poder-se-ia dizer que o amor corresponde ao eu ideal e, portanto, à procura de qualquer coisa de ideal que nós colocamos através de um mecanismo de identificação projectiva no outro. 
Portanto, à luz de uma perspectiva científica, como é apesar de tudo a psicanalítica, o problema começa a pôr-se de uma forma um bocado diferente. Nesse sentido e na medida em que o objecto amado é sempre idealizado e nunca é um objectivo real, a gente, de facto, nunca se está a relacionar com pessoas reais, estamos sempre a relacionarmo-nos com pessoas ideias e com fantasmas. A gente vive, de facto, num mundo de fantasmas: os amigos são fantasmas que têm para nós determinada configuração, ou os pais, ou os filhos, etc. 
(...) O amor é uma coisa que tem que tem que ver de tal forma com todo um mundo de fantasmas, com todo um mundo irreal, com todo um mundo inventado que nós carregamos connosco desde a infância, que até poderá haver, eventualmente, amor sem objecto. O amor não será, assim, necessariamente, uma luta corpo a corpo, ou uma luta corporal, mas pode ter que ver realmente com outras coisas, uma idealização, um desejo de encontrar qualquer coisa de perdido, nosso, que é normalmente isso que se passa, no amor neurótico, ou mesmo não neurótico. Quer dizer, é a procura de encontrarmos qualquer coisa que a nós nos falta e que tentamos encontrar no outro e nesse caso tem muito mais que ver connosco do que com a outra pessoa. Normalmente, isso passa-se assim e também não vejo que seja mau que, de facto, se passe assim. 

António Lobo Antunes, in "Diário Popular (1979)"
CANÇÃO MÍNIMA

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.


Cecília Meireles

14 março, 2017

O BEIJO DE RODIN

não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença
e leves contradições sem alarme e gafanhotos.
não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.

Sylvia Beirute