01 abril, 2017

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

Federico García Lorca
Certamente o homem não é nenhuma criação especial. Ele é o produto do trabalho do aperfeiçoamento gradual da Natureza, semelhante a qualquer outra unidade vivente nesta Terra. Mas isto é apenas com referência ao tabernáculo humano. Aquilo que vive e pensa no homem e sobrevive a essa forma é o "Eterno Peregrino", a protéica diferenciação no Espaço e Tempo do Uno "Incognoscível" e Absoluto."

Helena P. Blavatsky in: A Doutrina Secreta

31 março, 2017

E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano.
Clarice Lispector
Para abandonarmos a síndrome de “povo menino”, diagnosticado por Cesariny, ou a síndrome do império ou de uma certa sobranceria parola, é necessário que identifiquemos os erros de base, para que possamos melhorar aqueles que nos são endémicos e que atrofiam o desenvolvimento social do país. Aqui estão eles.
Em Portugal, a normalidade da convivência pura e simples não existe. Persiste uma visão infantil e bipolar, em que coexistem o “nós” perfeito e os “outros”, uma cambada de inúteis e oportunistas. Existe uma total ausência da noção do que é o bem comum. Entretemo-nos em guerras inúteis, destruindo o caminho uns dos outros. Nada se constrói, nada tem continuidade. E o “outro” é um alvo permanente a abater.
É, pois, fundamental reforçar a ideia de bem comum, acima da tradicional turbulência quando muda a cor política ou emerge um novo grupo de interesses. É como se brincássemos com o país, ficando claro o embaraçoso amadorismo nacional das instituições, dos agentes, da falta de planeamento e estratégias a longo prazo.
Se a ausência de noção de bem comum na política é gritante, esta é extensível a todos os sectores da sociedade.
(...)

30 março, 2017

CÂNTICOS III

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa,completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

Cecília Meireles

28 março, 2017

Sobre Amor e Sexo
A união de dois corpos só é positiva quando existem compreensão e comunhão de coração e espírito. Mesmo entre marido e mulher, se não houver comunhão de coração e espírito, o encontro dos dois corpos só irá separá-los mais. Quando isso acontece, recomendamos ao casal que evite ter relações sexuais e procure primeiro desenvolver uma comunicação mais profunda. Ao praticar a responsabilidade sexual, a pessoa deve sempre examinar a natureza do seu amor para conhecê-la melhor e não se deixar enganar por seus sentimentos. Às vezes ela pensa amar alguém, mas esse amor pode ser apenas uma tentativa de satisfazer suas necessidades egoístas. Talvez não tenha analisado o suficiente para descobrir as necessidades da outra pessoa, inclusive as de segurança e proteção. Esse tipo de reflexão leva a compreender que o outro precisa de sua proteção e, portanto, não pode ser visto apenas como um objeto de seu desejo, um tipo de artigo comercial. Na nossa sociedade, o sexo é usado como um meio de vender produtos. Se a pessoa não olhar para a outra como um ser humano, com a capacidade de se tornar um Buda, ela se arrisca a transgredir o treinamento da atenção plena sobre a responsabilidade sexual. A prática de observar profundamente a natureza do amor que sentimos é muito importante.

Thich Nhat Hanh, Lições sobre o amor

27 março, 2017

NALGUM LUGAR EM QUE NUNCA ESTIVE

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos tem o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

e. e. cummings