15 abril, 2017

Urgência

Corro atrás do tempo mas o tempo corre
ao sabor do vento a esperança morre
e vamos crescendo na mesma cidade
tu dançando eu vendo
(o)que pesa a idade
mudam-se as vontades e as inimizades
só não muda a urgência em ter te de verdade
...
não meço o amor que mereço
(...)

12 abril, 2017

Thich Nhat Hanh: está o mindfulness a ser desvirtuado pelos negócios e pela finança?

O mestre zen fala sobre os seus conselhos à Google e a outros gigantes tecnológicos para se tornarem uma força para o bem do mundo.

O Mindfulness tem vindo a tornar-se num assunto cada vez mais popular entre as lideranças empresariais, com vários executivos de topo a falarem publicamente nos últimos meses em como isso os ajudou a melhorar os seus resultados.
Khajak Keledjian, CEO da intermix, compartilhou, na semana passada, os seus segredos em relação à sua paz interior com o The Wall Sreet Journal. Arianna Huffington, editora-chefe do The Huffington Post discutiu o tema mindfulness em “Thrive”, o seu novo livro lançado esta semana. Entre os líderes empresariais que meditam estão nomes como os de Marc Bertolini, CEO da Aetna, Marc Benioff, CEO da Salesforce.com e Tony Hsieh, CEO daZappos.com, isto para nomear apenas alguns.
Num post colocado no mês passado, Arianna Huffington escreveu que “não há nada de amoroso quando se trata de aumentar lucros. Estamos perante uma economia em crise… A redução de stress e a atenção plena não apenas nos deixam mais felizes e saudáveis, como constituem ainda uma comprovada vantagem competitiva para qualquer empresa.”
Mas ao focarem a sua atenção nos benefícios resultantes do mindfulness, não estarão os líderes empresariais a perverter o espírito da prática budista?
Thich Nhat Hanh, mestre zen de 87 anos, considerado por muitos como o pai do mindfulness no Ocidente, diz que desde que os empresários pratiquem o “verdadeiro” mindfulness, pouco importa se a intenção original é despoletada por uma vontade de maior eficiência no trabalho ou pelo objetivo do lucro. Isto porque a prática irá alterar profundamente a sua perspectiva de vida, abrindo-lhes o coração a uma maior compaixão e ao desenvolvimento de uma vontade para acabar com o sofrimento alheio.
Sentado na posição de lótus no chão do seu mosteiro em Plum Village, perto de Bordéus, em França, Thay – como o mestre zen é conhecido pelos seus centenas de milhar de seguidores por todo o mundo – disse ao The Guardian: “Se você souber como praticar mindfulness então vai ser capaz de gerar paz e felicidade imediatamente, aqui e agora – e isso é algo que você vai valorizar ao mesmo tempo que também o vai transformar. No início, você pensa que só vai ser feliz se for o primeiro em tudo; eis um tipo de ideia de que se vai libertar rapidamente se praticar mindfulness. Não há nada a temer em que o mindfulness se possa tornar apenas um meio e não um fim porque no mindfulness os meios e os fins são a mesma coisa. Não existe um caminho para a felicidade… a felicidade é o caminho.”
Porém, realça Thay, se os executivos estão na prática por razões egoístas, então estão a experienciar apenas uma mera e pálida sombra de mindfulness.
“Se alguém está a pensar o mindfulness como um meio para fazer muito dinheiro, então é porque não conseguiu atingir o seu verdadeiro propósito. Pode até parecer uma prática de mindfulness, mas ela não produzirá paz, satisfação ou felicidade. Será apenas uma caricatura. Se se não sentir a energia do sentido de irmandade irradiando do nosso trabalho, isso não é mindfulness”, disse.
“Se você for uma pessoa feliz, não poderá ser vítima da sua felicidade. Mas se você for uma pessoa de sucesso, poderá ser vítima do seu sucesso”, conclui Thai.
O risco do ridículo
Mesmo sendo o mindfulness cada vez mais mainstream, há ainda um grande número de organizações com medo de parecerem ridículas por se associarem diretamente a uma antiga prática budista.
Thay foi recentemente convidado pelo presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, cujo livro favorito é o seu “The Miracle of Mindfulness”, e que tece os maiores elogios ao monge zen por a sua prática “ser tão profundamente dedicada e compassiva em relação aqueles que sofrem”, à sede do organismo em Washington num evento que teve um acolhimento extraordinário entre os funcionários.
O que não impediu críticas, antes do acontecimento, por parte de alguns membros superiores da administração, preocupados com a imagem que poderia passar para o exterior. E, de facto, o The Economist fez, na altura, um artigo bastante crítico sobre o assunto.
No entanto, Jim Yong Kim manteve-se firme. O presidente do Banco Mundial declarou ao Guardian ter resistido às críticas salientando os vários estudos científicos que demonstram os benefícios do mindfulness.
A intersecção entre mindfulness e tecnologia
Mas talvez o cruzamento mais interessante no mundo dos negócios seja entre o mindfulness e a tecnologia, já que aparentemente ambos parecem puxar para polos opostos. A prática tem tudo a ver com desacelerar e esvaziar a mente, enquanto que a revolução digital trata de acelerar a nossa vida e encher as nossas cabeças com uma vasta quantidade de informação.
Apesar disso, os dois têm uma longa história em comum. Steve Jobs, CEO da Apple, era fascinado pelo budismo zen e há décadas que o mindfulness está ligado ao estilo de vida californiano, local onde muitas tecnológicas estão sedeadas.
Assim, não constituiu propriamente uma surpresa que Thay – que já vendeu mais de dois milhões de livros nos Estados Unidos -, tivesse sido convidado pela Google a deslocar-se a Silicon Valley e solicitado a orientar um dia exclusivo de mindfulness para CEO de 15 das mais poderosas companhias tecnológicas do mundo.
A mensagem principal de Thay aos líderes da tecnologia foi para que estes usassem a sua influência a nível global para se concentrarem em como é que podem contribuir para fazer do mundo um lugar melhor, em oposição à ideia de como obter o máximo de lucros.
Thay e um grupo de monges passaram um dia na sede da Google, falando com os gestores de topo e liderando debates e sessões de meditação, sentada e em movimento, com cerca de 700 trabalhadores. A procura entre os funcionários foi tão grande que a empresa teve que abrir dois novos locais para transmissão em stream das palestras.
Thay falou sobre a acentuada diferença entre o normal ritmo frenético de trabalho deste gigante da tecnologia e o sentido de paz que resultou do sentar em silêncio durante o dia de mindfulness no Googleplex campus. “A atmosfera foi totalmente diferente. Há um silêncio, há uma paz que advém do não fazer nada. E, nesse espaço, as pessoas podem perceber a preciosidade do tempo”, disse.
Um conselho à indústria tecnológica
Durante a sua visita, cujo tema foi “intenção, inovação, insight”, Thay encontrou-se com uma série de engenheiros superiores da Google para debater como pode a companhia usar a tecnologia no sentido de uma maior compaixão e eficácia para uma alteração positiva do mundo, em vez de aumentar o stress e o isolamento das pessoas, tanto entre si como em relação à natureza.
“Os que criam dispositivos eletrónicos, devem refletir se esse novo produto irá afastar as pessoas de si própria, da família e da natureza. Em vez disso, podem criar aparelhos e software capazes de ajudar as pessoas a regressarem a si, de cuidar das suas emoções. Ao fazerem isso, vão sentir-se bem porque estarão a fazer algo de bom para a sociedade”, disse Thay.
Nesse retiro de um dia com os CEO, Thay orientou uma meditação em silêncio e ofereceu um chá, numa cerimónia zen, antes de iniciar uma palestra dirigida ao grupo constituído maioritariamente por milionários sobre como é importante que eles, enquanto indivíduos, resistam a se deixarem consumir pelo trabalho à custo do tempo com a família: “O tempo não é dinheiro. O tempo é vida, o tempo é amor”, disse-lhes.
De regresso ao seu mosteiro de Plum Village, Thay fala sobre a sua viagem: “Em todas as visitas que fiz, disse-lhes que devem conduzir os negócios de forma a que a felicidade nas empresas possa ser possível para todos. Para é que serve ter mais dinheiro se eles vão sofrer mais? Outra coisa que eles devem perceber é que se tiverem aspirações positivas serão mais felizes porque ajudar a sociedade a mudar dá significado à vida.”
A viagem foi apenas um princípio, acrescentou Thay. “Acredito que plantamos algumas sementes e que vai passar algum tempo até elas amadurecerem”, disse. “Se eles começarem a praticar mindfulness, vão experimentar satisfação, felicidade e transformação, podendo definir para si próprios outro tipo de aspirações. Fama, poder e dinheiro não podem trazer qualquer verdadeira felicidade em comparação com aquela que advém de um modo de vida onde cuidamos do nosso corpo e das nossas emoções”, concluiu Thay.

in The Guardian | 28 de março de 2014
Tradução de Raul C. Gonçalves

11 abril, 2017

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma 
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

10 abril, 2017

rede virtual 2.

Mágoas?
Só de alguns amigos
se terem deixado confundir
pelo tempo à pressa
pelo brilho dos ecrãs
pela borboleta na lâmpada
pelos enredos das redes
antissociais

joão habitualmente

09 abril, 2017

A permanência da Maria Felicidade

Não são necessariamente preciso palavras, para que na vida se possa expressar o Amor e o sentido das coisas. Há inevitavelmente pessoas que permanecem não pelo sangue, mas pelo que significam em nós. Sejam elas que cognome tenham.
A minha avó Conceição não me ensinou a ler ou a escrever, coisas consideradas importantes, mas ensinou-me a simplicidade das coisas, o estar e ser. Foi com ela que descobri o que era o café da Avó, ou as sopas de pão! Se sei o que é pão, pão a sério em forno de lenha, foi porque ela o fazia. E quando o fazia, havia sempre uma brendeira para o neto. Nem sempre com açúcar amarelo com ela as comia.
Ela era doce por natureza, com tempo para a conversa e para nada fazer se fosse possível. Também adorava vestir-se bem e passear. Era um desfrute do momento, da sua presença e dos seus afazeres. Foi com ela que aprendi o que é retalhos, cozer retalhos e herdei dela esse gosto. Também herdei a sua velha Singer e um tapete de retalhos!
Mas existe algo em mim mais que isso. Não são memórias é algo mais entranhado, é uma identidade que se desvanece nos nosso dias. É a cultura de uma vida difícil mas feliz e em gratidão. É um estar ali, para ali estar. É o pegar num terço e ali ficar a rezar (meditar) para ela e para os demais. O cuidado, seja de que forma for! O passar o tempo. Muitas vezes rezava e dizia: “estou a rezar para ti”. Foi por ela que tantas vezes fui à missa contrariado.
O gosto de ter um jardim bonito, com flores, onde os brincos-de-princesa se presenteavam floridos. O ficar com as mãos pretas de descascar nozes, no tempo quando ainda existiam nogueiras a serio. O fazer todas as sextas-feiras uma grande panela de misturadas (sopa de feijão), familiar e comunitária, jeito que a minha Mãe herdou e o neto tenta acompanhar para que os sabores permaneçam naquele gesto. Coisas com a importância que lhes damos, pequenos nadas com quem pouco vive.
Nos seus últimos tempos já raramente me conhecia. Mas eu reconhecia nela toda a imensidão e genética das antigas Vénus da pré história, Mães da terra e de todos os seres.
E se hoje me correm algumas lágrimas, é de felicidade e gratidão por ter cohabitado e conhecido tão grande ser. Porque quem amamos permanece sempre em nós seja de que forma for...
a.tereso

07 abril, 2017

desenho infantil
I
Os animais no alvorecer, os gritos reflectidos num plafond mais denso da neblina e devolvidos aos chiqueiros, sob a forma de raios que fulminam o gado, para subir de novo como gritos à bruma impermeável e tornar a descer: na madrugada, a aprendizagem da criança começa pela dor, que se desdobra sem descanso e a partir de si mesma.

carlos de oliveira
instinto
aceitar os dias por instinto
por dentro
um vulcão de papel
a inventar
as horas seguintes
ser tranquilamente uma terra antiga
um lugar de secura
onde adormecidas pérolas
esperam o cavar silencioso
do tempo
e colher no infinito
esse brilho adiado
como se fossem outra vez
os teus olhos

gil t. sousa