29 maio, 2017

O Eterno Masculino, 
para além do mecânico...

A Sexualidade Sagrada, ou o Sagrado Feminino e Masculino, andam lado a lado na vivência humana desde a sua génese, onde por repetição e inconsciência natural se proliferou a espécie. É imperativo deixar o ser irracional de vez, para que esta transformação se concretize e se torne efectiva.
O desenvolvimento natural pelo mecânico, real, racional que o homem alimentou, contrasta e complementa-se com o sensorial, místico e o idílico que a mulher sempre adornou na sua essência.
Uma dualidade yin/ yang, um complemento que ao longo da nossa(s) pequena(s) história(s) se desenrolou com normalidade, mas nem sempre com toda a naturalidade para ambos os casos. Ambas as energias se oprimiram por diferente razões e quase sempre pelos mesmos factores. A falta de auto conhecimento ou a auto indefinição do seu corpo e mente, na sua raiz energética, fizeram com que na contemporaneidade se queira inverter papeis, energias ou se viva por vezes falsas identidades.
Se por um lado é normal, entre mulheres falar-se do Sagrado Feminino, entre homens ainda é um pouco tabu viver-se/ partilhar-se o íntimo, conceitos, medos que se acumulam entre gerações, entre géneses que importa colocar a descoberto, para que a (con)vivência nos dias de hoje possa ser cada vez mais verdadeira e plena com o propósito de cada um. O “eu” individual masculino, cada um como ser uno, num processo mecânico, mas criador, sensitivo e espiritual.
É neste sentido e para que se caminhe lado a lado, que importa falar no Sagrado Masculino, na vivência íntima e solitária de cada um, para que surja uma energia unificadora, respeitadora e se envolva nos novos propósitos mundiais. Uma sexualidade espiritual, em verdade, consciência, direcionada do presente, para o presente, entre o homem e mulher, ou vice versa...
Porque nem sempre quando se juntam homens se fala de mulheres e futebol...

a.tereso
(em descoberta)

"Se um homem se separa dos seus desejos masculinos mais obscuros por liberdade, dá um nó na mangueira da sua força masculina. A sua energia não fluirá livremente, e a sua atenção será limitada por desejos insatisfeitos. Mais importante, se a sua mangueira está torcida desta maneira, ele enfraquece a sua capacidade masculina de permanecer sem medo na morte, que é vida consciente. Ele não será capaz de enfrentar o desconhecido que é o chão sem chão do Ser, e ainda funcionar a partir do seu coração, em amor."
David Deida

27 maio, 2017

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles
P: Eu vejo que funciono de forma mais inteligente!
Krishnamurti: Não sei senhor, aprofunde, aprofunde. Não diga nada, descubra. Descubra porquê que acumula!
Se a mente tem medo de ficar vazia, a acumulação torna-se imperativa.


Krishnamurti


https://www.youtube.com/watch?v=yW9Kt4UovX8

21 maio, 2017

Silencio

Yo que crecí dentro de un árbol
tendría mucho que decir,
pero aprendí tanto silencio
que tengo mucho que callar
y eso se conoce creciendo
sin otro goce que crecer,
sin más pasión que la substancia,
sin más acción que la inocencia,
y por dentro el tiempo dorado
hasta que la altura lo llama
para convertirlo en naranja.
Pablo Neruda
Precisamos mudar nossa sociedade, nosso estilo de vida, e para isso precisamos de novos valores e normas que acompanham e orientam-nos dessa maneira.

A maioria das pessoas, na ecologia profunda, já experimentou o sentimento – habitualmente, mas nem sempre, em plena natureza – de que estão ligadas a algo maior do que o seu ego, maior do que o seu nome, a sua família, os seus atributos especiais como indivíduos – um sentimento a que muitas vezes se chama oceânico, pois muita gente o experimenta perante o oceano. Sem essa identificação, não é fácil que alguém se sinta atraído e se deixe envolver pela ecosofia.

Arne Naess

20 maio, 2017

o poema

V
Existia alguma coisa para denominar no alto desta sombria
masculinidade. Era talvez um cego escorrer
de sangue pelos anéis e flores do corpo.
Sei unicamente que era a força da tristeza, ou a força
da alegria da minha vida.
Havia também outra coisa a que se deveria dar
um nome belo e lento. Algo que se cercava de lágrimas
como uma árvore se vai cercando de folhas
inúmeras. Tudo isso começava
a aparecer nas vozes e inspirações como uma ardente
confusão. Era primeiro uma virtude.
Depois, este vagaroso acender
da noite. O sangue despenhava-se
nas lagoas e grutas da carne. Hoje eu sabia
que era a tristeza, a tristeza — um poder
mais jovem que os demais. Esquecia de novo os nomes,
e todo me circundava de uma torrente
silenciosa, de uma cítara fortemente anunciadora.
Nunca se deve dizer que um rosto perde
as suas brasas quando se inclina sobre a penumbra
de uma fonte, sobre um instrumento rápido.
Porque o rumor ressalta na noite parada, e pode-se
enlouquecer eternamente. Ou porque a colher
pode ligar a terra à violência do espírito.
— Lá estariam sempre as grandes arcadas de fogo,
as portas, a loucura das pontes celestes
aonde a invenção chega como um frio arrebatamento.
Havia essa espécie de vocação implorativa, a doçura
do corpo subtilmente preso por crateras e picos
ao tumulto das sombras.
Eu abaixava-me e tomava como nos braços
essa criança ignota.
E porões enchiam-se de água, eu seria em breve
um afogado. Tudo me inspirava
nessa noite abrupta, entre o começo e o fim
do mundo. Como pode um coração absorver
tanta matéria, tanta inocência da terra?
Se era uma criança, sua vida circulava
indecisamente; se eram os mortos,
a distância tornava-se infinita. Apenas
a minha força se dobrava um pouco, e um novo calor
corria nas palavras adormecidas
e degelava as mãos que se cobriam
de um sentido impenetrável,
— Essa forma amparava-se no sexo repleto
de espinhos e espelhos,
e era uma espécie de retrato sem névoas, um eixo, um grito,
uma louca morte
onde começassem a girar as inspirações misteriosas.

herberto helder
Intensidade na leveza das manhãs,
Lismore uma realidade presente em Thomas Morus

Aqui em Lismore senti-me em casa, mas também foi aqui que vivi dos dias mais intensos e reflectivos. A percepção da condição que me alberga no momento.
Talvez aqui me tenha apercebido que importa não levar ao limite o esforço e que se deve por vezes, parar. É raro cansar-me, ou não recuperar numa noite o esforço do dia anterior. O viver de objetivos e no limite pode nos condicionar. Apesar deste raciocínio e de ser a mente a limitar-nos e não o corpo, tudo surgiu por ter feito um entorse no tornozelo. Talvez pela descontração e relax que aqui vivi. Sem grandes preocupações e feliz. Verdadeiramente por estar a contribuir e de certo modo a viver um sonho.
Assustei-me pois parecia que nunca tinha feito um entorse tão grave. Pensei que tivesse partido o pé. Fui forçado a parar e apesar de querer ir ao hospital, acabei por não ir. Tudo isto ajudou a que a dor do joelho passa-se. Passados dois dias percebi que não deveria ser tão grave. Descansei durante quatro dias, dei muitos mimos ao pé (gelo, pomada) e após esses dias voltei ao trabalho com todos os cuidados, como se de fisioterapia se tratasse.


Após a construção da parede de pedra, tinha como objetivo ajudar na construção das paredes em fardos de palha e nos rebocos. Assim aconteceu naturalmente. Nesses dias empenhei-me a fazer e aprender o máximo. Foi intenso mas maravilhoso ver a crescer as paredes, a passar os dias e perceber o detalhe deste tipo de construção. Apesar do cansaço, por vezes custava parar. Também por sentir que deveria ir, continuar a viagem.
Houve reforço de equipa (voluntários) e plano de avançar para se terminar o mais possível. Dias intensos, mas felizes e de convívio. Comecei então a pensar mais a sério em um novo projeto e terminar o que me tinha proposto finalizar, os rebocos em cal.
Foi também nas ultimas semanas que recebi a notícia da morte da minha querida avó Conceição. Alguém que me marcou muito na minha vida, pela sua descontração, sorriso e energia. Alguém de quem eu sinto que herdei mais do que aquilo que sei. Alguém que se manterá viva em mim, pela sua simplicidade e grandeza.


Foi em Lismore que me senti em casa, feliz, com dias intensos, voltei a ver cordeiros a nascer, numa imensidão de natureza, mas sabia que teria que continuar. Custa-me sempre mudar de projeto. Cria-se sempre alguma ansiedade, não pela mudança ou desconhecido, mas por mais uma vez ter que criar formas de comunicação. Isto porque o inglês anda sempre mais devagar, que eu próprio. Por preguiça e adversão.
Se tiver oportunidade voltarei a este sítio e conhecerei mais esta zona da Escócia que é maravilhosa pela sua monumentalidade paisagística. Sou grato a tudo o que aqui vivi, pois permitiu-me perceber da minha invencibilidade e que nem sempre conseguirei controlar/ moldar as coisas como eu quero. Conhecer os limites e tornar consciente a importância do culto da mente sobre o corpo. Valorizar cada vez mais, com presença as pessoas que por nós são queridas e uma referência. Viver para além da materialidade.



Até já Utopia!
(19-04-17)

08 maio, 2017

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

01 maio, 2017

Vou deitar-te na eternidade, que é esse o teu lugar, é esse, é esse.
E agora só tenho que te amar tudo de ti, não deixar nada de fora.
Porquê, sabê-lo-ás?
Nunca ninguém amou completamente, houve sempre uma forma de amar fragmentária, parcial. Amou-se sempre em função de uma fracção do amor como se usou um vestuário segundo a moda, desde o calção ou o penante de plumas.
Vou-te amar como Deus. Não, não. Deus não sente prazer nem movimento progressivo até ao prazer, coitado, é tão infeliz.
Vou-te amar como um homem desde que os há, desde o tempo das cavernas até hoje e com um pequeno suplemento que é só meu.

VERGÍLIO FERREIRA
Nunca Ninguém Amou Completamente

27 abril, 2017

vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas
vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração
e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti
não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim

valter hugo mãe

25 abril, 2017

A diferença
De modo diferente, com estranheza intensa,
a paixão deslumbra-se como uma passagem
sobre as criaturas. Vento em estendais de roupa,
luzes que se acendem nas rotundas, danças nupciais
de insectos nos arbustos – assim se atravessa
a expansão do mundo. Uma atenção não prende
quando se respira com este esplendor. A solidão
sossega-nos: fica-se sagrado por um olhar facílimo
e o pensamento move-se para conhecer estames,
corolas, pares de asas. O amor nada perturba:
toca-se num corpo e não se quebra, desce-se a um nome
e a voz brilha. O tempo oferece-nos presentes.


carlos poças falcão

16 abril, 2017

é dado amar sempre mais

É dado amar sempre mais
um mesmo ser.
É dado confundir-se
com a quebração das ondas.
É dado manter
o rescaldo vibrante do fogo.

antónio osório

15 abril, 2017

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia
Urgência

Corro atrás do tempo mas o tempo corre
ao sabor do vento a esperança morre
e vamos crescendo na mesma cidade
tu dançando eu vendo
(o)que pesa a idade
mudam-se as vontades e as inimizades
só não muda a urgência em ter te de verdade
...
não meço o amor que mereço
(...)

12 abril, 2017

Thich Nhat Hanh: está o mindfulness a ser desvirtuado pelos negócios e pela finança?

O mestre zen fala sobre os seus conselhos à Google e a outros gigantes tecnológicos para se tornarem uma força para o bem do mundo.

O Mindfulness tem vindo a tornar-se num assunto cada vez mais popular entre as lideranças empresariais, com vários executivos de topo a falarem publicamente nos últimos meses em como isso os ajudou a melhorar os seus resultados.
Khajak Keledjian, CEO da intermix, compartilhou, na semana passada, os seus segredos em relação à sua paz interior com o The Wall Sreet Journal. Arianna Huffington, editora-chefe do The Huffington Post discutiu o tema mindfulness em “Thrive”, o seu novo livro lançado esta semana. Entre os líderes empresariais que meditam estão nomes como os de Marc Bertolini, CEO da Aetna, Marc Benioff, CEO da Salesforce.com e Tony Hsieh, CEO daZappos.com, isto para nomear apenas alguns.
Num post colocado no mês passado, Arianna Huffington escreveu que “não há nada de amoroso quando se trata de aumentar lucros. Estamos perante uma economia em crise… A redução de stress e a atenção plena não apenas nos deixam mais felizes e saudáveis, como constituem ainda uma comprovada vantagem competitiva para qualquer empresa.”
Mas ao focarem a sua atenção nos benefícios resultantes do mindfulness, não estarão os líderes empresariais a perverter o espírito da prática budista?
Thich Nhat Hanh, mestre zen de 87 anos, considerado por muitos como o pai do mindfulness no Ocidente, diz que desde que os empresários pratiquem o “verdadeiro” mindfulness, pouco importa se a intenção original é despoletada por uma vontade de maior eficiência no trabalho ou pelo objetivo do lucro. Isto porque a prática irá alterar profundamente a sua perspectiva de vida, abrindo-lhes o coração a uma maior compaixão e ao desenvolvimento de uma vontade para acabar com o sofrimento alheio.
Sentado na posição de lótus no chão do seu mosteiro em Plum Village, perto de Bordéus, em França, Thay – como o mestre zen é conhecido pelos seus centenas de milhar de seguidores por todo o mundo – disse ao The Guardian: “Se você souber como praticar mindfulness então vai ser capaz de gerar paz e felicidade imediatamente, aqui e agora – e isso é algo que você vai valorizar ao mesmo tempo que também o vai transformar. No início, você pensa que só vai ser feliz se for o primeiro em tudo; eis um tipo de ideia de que se vai libertar rapidamente se praticar mindfulness. Não há nada a temer em que o mindfulness se possa tornar apenas um meio e não um fim porque no mindfulness os meios e os fins são a mesma coisa. Não existe um caminho para a felicidade… a felicidade é o caminho.”
Porém, realça Thay, se os executivos estão na prática por razões egoístas, então estão a experienciar apenas uma mera e pálida sombra de mindfulness.
“Se alguém está a pensar o mindfulness como um meio para fazer muito dinheiro, então é porque não conseguiu atingir o seu verdadeiro propósito. Pode até parecer uma prática de mindfulness, mas ela não produzirá paz, satisfação ou felicidade. Será apenas uma caricatura. Se se não sentir a energia do sentido de irmandade irradiando do nosso trabalho, isso não é mindfulness”, disse.
“Se você for uma pessoa feliz, não poderá ser vítima da sua felicidade. Mas se você for uma pessoa de sucesso, poderá ser vítima do seu sucesso”, conclui Thai.
O risco do ridículo
Mesmo sendo o mindfulness cada vez mais mainstream, há ainda um grande número de organizações com medo de parecerem ridículas por se associarem diretamente a uma antiga prática budista.
Thay foi recentemente convidado pelo presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, cujo livro favorito é o seu “The Miracle of Mindfulness”, e que tece os maiores elogios ao monge zen por a sua prática “ser tão profundamente dedicada e compassiva em relação aqueles que sofrem”, à sede do organismo em Washington num evento que teve um acolhimento extraordinário entre os funcionários.
O que não impediu críticas, antes do acontecimento, por parte de alguns membros superiores da administração, preocupados com a imagem que poderia passar para o exterior. E, de facto, o The Economist fez, na altura, um artigo bastante crítico sobre o assunto.
No entanto, Jim Yong Kim manteve-se firme. O presidente do Banco Mundial declarou ao Guardian ter resistido às críticas salientando os vários estudos científicos que demonstram os benefícios do mindfulness.
A intersecção entre mindfulness e tecnologia
Mas talvez o cruzamento mais interessante no mundo dos negócios seja entre o mindfulness e a tecnologia, já que aparentemente ambos parecem puxar para polos opostos. A prática tem tudo a ver com desacelerar e esvaziar a mente, enquanto que a revolução digital trata de acelerar a nossa vida e encher as nossas cabeças com uma vasta quantidade de informação.
Apesar disso, os dois têm uma longa história em comum. Steve Jobs, CEO da Apple, era fascinado pelo budismo zen e há décadas que o mindfulness está ligado ao estilo de vida californiano, local onde muitas tecnológicas estão sedeadas.
Assim, não constituiu propriamente uma surpresa que Thay – que já vendeu mais de dois milhões de livros nos Estados Unidos -, tivesse sido convidado pela Google a deslocar-se a Silicon Valley e solicitado a orientar um dia exclusivo de mindfulness para CEO de 15 das mais poderosas companhias tecnológicas do mundo.
A mensagem principal de Thay aos líderes da tecnologia foi para que estes usassem a sua influência a nível global para se concentrarem em como é que podem contribuir para fazer do mundo um lugar melhor, em oposição à ideia de como obter o máximo de lucros.
Thay e um grupo de monges passaram um dia na sede da Google, falando com os gestores de topo e liderando debates e sessões de meditação, sentada e em movimento, com cerca de 700 trabalhadores. A procura entre os funcionários foi tão grande que a empresa teve que abrir dois novos locais para transmissão em stream das palestras.
Thay falou sobre a acentuada diferença entre o normal ritmo frenético de trabalho deste gigante da tecnologia e o sentido de paz que resultou do sentar em silêncio durante o dia de mindfulness no Googleplex campus. “A atmosfera foi totalmente diferente. Há um silêncio, há uma paz que advém do não fazer nada. E, nesse espaço, as pessoas podem perceber a preciosidade do tempo”, disse.
Um conselho à indústria tecnológica
Durante a sua visita, cujo tema foi “intenção, inovação, insight”, Thay encontrou-se com uma série de engenheiros superiores da Google para debater como pode a companhia usar a tecnologia no sentido de uma maior compaixão e eficácia para uma alteração positiva do mundo, em vez de aumentar o stress e o isolamento das pessoas, tanto entre si como em relação à natureza.
“Os que criam dispositivos eletrónicos, devem refletir se esse novo produto irá afastar as pessoas de si própria, da família e da natureza. Em vez disso, podem criar aparelhos e software capazes de ajudar as pessoas a regressarem a si, de cuidar das suas emoções. Ao fazerem isso, vão sentir-se bem porque estarão a fazer algo de bom para a sociedade”, disse Thay.
Nesse retiro de um dia com os CEO, Thay orientou uma meditação em silêncio e ofereceu um chá, numa cerimónia zen, antes de iniciar uma palestra dirigida ao grupo constituído maioritariamente por milionários sobre como é importante que eles, enquanto indivíduos, resistam a se deixarem consumir pelo trabalho à custo do tempo com a família: “O tempo não é dinheiro. O tempo é vida, o tempo é amor”, disse-lhes.
De regresso ao seu mosteiro de Plum Village, Thay fala sobre a sua viagem: “Em todas as visitas que fiz, disse-lhes que devem conduzir os negócios de forma a que a felicidade nas empresas possa ser possível para todos. Para é que serve ter mais dinheiro se eles vão sofrer mais? Outra coisa que eles devem perceber é que se tiverem aspirações positivas serão mais felizes porque ajudar a sociedade a mudar dá significado à vida.”
A viagem foi apenas um princípio, acrescentou Thay. “Acredito que plantamos algumas sementes e que vai passar algum tempo até elas amadurecerem”, disse. “Se eles começarem a praticar mindfulness, vão experimentar satisfação, felicidade e transformação, podendo definir para si próprios outro tipo de aspirações. Fama, poder e dinheiro não podem trazer qualquer verdadeira felicidade em comparação com aquela que advém de um modo de vida onde cuidamos do nosso corpo e das nossas emoções”, concluiu Thay.

in The Guardian | 28 de março de 2014
Tradução de Raul C. Gonçalves

11 abril, 2017

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma 
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

10 abril, 2017

rede virtual 2.

Mágoas?
Só de alguns amigos
se terem deixado confundir
pelo tempo à pressa
pelo brilho dos ecrãs
pela borboleta na lâmpada
pelos enredos das redes
antissociais

joão habitualmente

09 abril, 2017

A permanência da Maria Felicidade

Não são necessariamente preciso palavras, para que na vida se possa expressar o Amor e o sentido das coisas. Há inevitavelmente pessoas que permanecem não pelo sangue, mas pelo que significam em nós. Sejam elas que cognome tenham.
A minha avó Conceição não me ensinou a ler ou a escrever, coisas consideradas importantes, mas ensinou-me a simplicidade das coisas, o estar e ser. Foi com ela que descobri o que era o café da Avó, ou as sopas de pão! Se sei o que é pão, pão a sério em forno de lenha, foi porque ela o fazia. E quando o fazia, havia sempre uma brendeira para o neto. Nem sempre com açúcar amarelo com ela as comia.
Ela era doce por natureza, com tempo para a conversa e para nada fazer se fosse possível. Também adorava vestir-se bem e passear. Era um desfrute do momento, da sua presença e dos seus afazeres. Foi com ela que aprendi o que é retalhos, cozer retalhos e herdei dela esse gosto. Também herdei a sua velha Singer e um tapete de retalhos!
Mas existe algo em mim mais que isso. Não são memórias é algo mais entranhado, é uma identidade que se desvanece nos nosso dias. É a cultura de uma vida difícil mas feliz e em gratidão. É um estar ali, para ali estar. É o pegar num terço e ali ficar a rezar (meditar) para ela e para os demais. O cuidado, seja de que forma for! O passar o tempo. Muitas vezes rezava e dizia: “estou a rezar para ti”. Foi por ela que tantas vezes fui à missa contrariado.
O gosto de ter um jardim bonito, com flores, onde os brincos-de-princesa se presenteavam floridos. O ficar com as mãos pretas de descascar nozes, no tempo quando ainda existiam nogueiras a serio. O fazer todas as sextas-feiras uma grande panela de misturadas (sopa de feijão), familiar e comunitária, jeito que a minha Mãe herdou e o neto tenta acompanhar para que os sabores permaneçam naquele gesto. Coisas com a importância que lhes damos, pequenos nadas com quem pouco vive.
Nos seus últimos tempos já raramente me conhecia. Mas eu reconhecia nela toda a imensidão e genética das antigas Vénus da pré história, Mães da terra e de todos os seres.
E se hoje me correm algumas lágrimas, é de felicidade e gratidão por ter cohabitado e conhecido tão grande ser. Porque quem amamos permanece sempre em nós seja de que forma for...
a.tereso

07 abril, 2017

desenho infantil
I
Os animais no alvorecer, os gritos reflectidos num plafond mais denso da neblina e devolvidos aos chiqueiros, sob a forma de raios que fulminam o gado, para subir de novo como gritos à bruma impermeável e tornar a descer: na madrugada, a aprendizagem da criança começa pela dor, que se desdobra sem descanso e a partir de si mesma.

carlos de oliveira
instinto
aceitar os dias por instinto
por dentro
um vulcão de papel
a inventar
as horas seguintes
ser tranquilamente uma terra antiga
um lugar de secura
onde adormecidas pérolas
esperam o cavar silencioso
do tempo
e colher no infinito
esse brilho adiado
como se fossem outra vez
os teus olhos

gil t. sousa