29 maio, 2017

fonte
II
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
Aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva, em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

herberto helder
O Eterno Masculino, 
para além do mecânico...

A Sexualidade Sagrada, ou o Sagrado Feminino e Masculino, andam lado a lado na vivência humana desde a sua génese, onde por repetição e inconsciência natural se proliferou a espécie. É imperativo deixar o ser irracional de vez, para que esta transformação se concretize e se torne efectiva.
O desenvolvimento natural pelo mecânico, real, racional que o homem alimentou, contrasta e complementa-se com o sensorial, místico e o idílico que a mulher sempre adornou na sua essência.
Uma dualidade yin/ yang, um complemento que ao longo da nossa(s) pequena(s) história(s) se desenrolou com normalidade, mas nem sempre com toda a naturalidade para ambos os casos. Ambas as energias se oprimiram por diferente razões e quase sempre pelos mesmos factores. A falta de auto conhecimento ou a auto indefinição do seu corpo e mente, na sua raiz energética, fizeram com que na contemporaneidade se queira inverter papeis, energias ou se viva por vezes falsas identidades.
Se por um lado é normal, entre mulheres falar-se do Sagrado Feminino, entre homens ainda é um pouco tabu viver-se/ partilhar-se o íntimo, conceitos, medos que se acumulam entre gerações, entre géneses que importa colocar a descoberto, para que a (con)vivência nos dias de hoje possa ser cada vez mais verdadeira e plena com o propósito de cada um. O “eu” individual masculino, cada um como ser uno, num processo mecânico, mas criador, sensitivo e espiritual.
É neste sentido e para que se caminhe lado a lado, que importa falar no Sagrado Masculino, na vivência íntima e solitária de cada um, para que surja uma energia unificadora, respeitadora e se envolva nos novos propósitos mundiais. Uma sexualidade espiritual, em verdade, consciência, direcionada do presente, para o presente, entre o homem e mulher, ou vice versa...
Porque nem sempre quando se juntam homens se fala de mulheres e futebol...

a.tereso
(em descoberta)

"Se um homem se separa dos seus desejos masculinos mais obscuros por liberdade, dá um nó na mangueira da sua força masculina. A sua energia não fluirá livremente, e a sua atenção será limitada por desejos insatisfeitos. Mais importante, se a sua mangueira está torcida desta maneira, ele enfraquece a sua capacidade masculina de permanecer sem medo na morte, que é vida consciente. Ele não será capaz de enfrentar o desconhecido que é o chão sem chão do Ser, e ainda funcionar a partir do seu coração, em amor."
David Deida

27 maio, 2017

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles
P: Eu vejo que funciono de forma mais inteligente!
Krishnamurti: Não sei senhor, aprofunde, aprofunde. Não diga nada, descubra. Descubra porquê que acumula!
Se a mente tem medo de ficar vazia, a acumulação torna-se imperativa.


Krishnamurti


https://www.youtube.com/watch?v=yW9Kt4UovX8

21 maio, 2017

Silencio

Yo que crecí dentro de un árbol
tendría mucho que decir,
pero aprendí tanto silencio
que tengo mucho que callar
y eso se conoce creciendo
sin otro goce que crecer,
sin más pasión que la substancia,
sin más acción que la inocencia,
y por dentro el tiempo dorado
hasta que la altura lo llama
para convertirlo en naranja.
Pablo Neruda
Precisamos mudar nossa sociedade, nosso estilo de vida, e para isso precisamos de novos valores e normas que acompanham e orientam-nos dessa maneira.

A maioria das pessoas, na ecologia profunda, já experimentou o sentimento – habitualmente, mas nem sempre, em plena natureza – de que estão ligadas a algo maior do que o seu ego, maior do que o seu nome, a sua família, os seus atributos especiais como indivíduos – um sentimento a que muitas vezes se chama oceânico, pois muita gente o experimenta perante o oceano. Sem essa identificação, não é fácil que alguém se sinta atraído e se deixe envolver pela ecosofia.

Arne Naess

20 maio, 2017

o poema

V
Existia alguma coisa para denominar no alto desta sombria
masculinidade. Era talvez um cego escorrer
de sangue pelos anéis e flores do corpo.
Sei unicamente que era a força da tristeza, ou a força
da alegria da minha vida.
Havia também outra coisa a que se deveria dar
um nome belo e lento. Algo que se cercava de lágrimas
como uma árvore se vai cercando de folhas
inúmeras. Tudo isso começava
a aparecer nas vozes e inspirações como uma ardente
confusão. Era primeiro uma virtude.
Depois, este vagaroso acender
da noite. O sangue despenhava-se
nas lagoas e grutas da carne. Hoje eu sabia
que era a tristeza, a tristeza — um poder
mais jovem que os demais. Esquecia de novo os nomes,
e todo me circundava de uma torrente
silenciosa, de uma cítara fortemente anunciadora.
Nunca se deve dizer que um rosto perde
as suas brasas quando se inclina sobre a penumbra
de uma fonte, sobre um instrumento rápido.
Porque o rumor ressalta na noite parada, e pode-se
enlouquecer eternamente. Ou porque a colher
pode ligar a terra à violência do espírito.
— Lá estariam sempre as grandes arcadas de fogo,
as portas, a loucura das pontes celestes
aonde a invenção chega como um frio arrebatamento.
Havia essa espécie de vocação implorativa, a doçura
do corpo subtilmente preso por crateras e picos
ao tumulto das sombras.
Eu abaixava-me e tomava como nos braços
essa criança ignota.
E porões enchiam-se de água, eu seria em breve
um afogado. Tudo me inspirava
nessa noite abrupta, entre o começo e o fim
do mundo. Como pode um coração absorver
tanta matéria, tanta inocência da terra?
Se era uma criança, sua vida circulava
indecisamente; se eram os mortos,
a distância tornava-se infinita. Apenas
a minha força se dobrava um pouco, e um novo calor
corria nas palavras adormecidas
e degelava as mãos que se cobriam
de um sentido impenetrável,
— Essa forma amparava-se no sexo repleto
de espinhos e espelhos,
e era uma espécie de retrato sem névoas, um eixo, um grito,
uma louca morte
onde começassem a girar as inspirações misteriosas.

herberto helder