15 junho, 2017


o sonho…


saber nutrir
mais de que uma prática diária
yoga é uma disciplina para o dia a dia
é também a forma como nos nutrimos, como respiramos e como estamos
é a relação connosco próprios e com os outros
apenas ser
ashtanga yoga sintra nasce do sonho de nutrir
trazer este conhecimento e arte milenar
torná-lo claro e acessível a todos e a todas as gerações
o desafio de olhar para dentro
vivemos tempos com muitos desafios
os imediatos e concretos, sociais económicos e ecológicos
mas existem dimensões mais subtis e invisíveis
e nesta realidade o cuidar das pessoas é o maior desafio
é a criação de ideias inovadoras com valores mais éticos e justos
com respeito à natureza e integração com o todo
caminho que começa dentro e com cada um de nós
pequenos passos, simples e práticos
melhoram o nosso dia a dia
individuo e colectivo
tudo pode começar com a forma e atenção do respirar
ligar ao movimento do corpo
e depois tudo acontece….
o desafio de transformar à nossa volta

05 junho, 2017

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mario Quintana
O Amor é o Amor

O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?... 
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar! 
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois?
espírito e calor! 
O amor é o amor — e depois? 

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado'

02 junho, 2017

Amor e disciplina

Quando você pensa na palavra “disciplina”, o que lhe vem à mente? Para muitos, disciplina faz lembrar um professor exigente, um pai ou mãe controladores. Tente deixar de lado essa ideia e pense na disciplina que um atleta adota livremente para obter o melhor de si mesmo. Ninguém pode torná-lo disciplinado. A disciplina é um presente que damos a nós mesmos.
Todos os aspectos do ser humano desabrocham com disciplina, e o mesmo acontece com os relacionamentos. A disciplina é o preço que a vida cobra pela felicidade. Novamente, não estou falando do prazer passageiro, e sim de felicidade duradoura. Você não pode ser feliz por um período longo se não tiver disciplina.
A disciplina é a estrada que leva à plenitude da vida.
Pense nos quatro aspectos do ser humano: físico, emocional, intelectual e espiritual. Quando nos alimentamos bem, nos exercitamos com frequência e temos uma rotina de sono regular, nos sentimos mais plenamente vivos fisicamente. Quando amamos, quando damos prioridade aos relacionamentos significativos de nossas vidas, quando nos dedicamos a ajudar os outros em sua jornada, nos sentimos mais vivos intelectualmente. Quando entramos na escola do silêncio e nos postamos diante de Deus [1] em oração, vivenciamos a vida mais plenamente do ponto de vista espiritual.
Cada uma dessas formas de vida mais plena requer disciplina.
Alimentar-se bem requer disciplina. Exercitar-se requer disciplina. Pensar nas necessidades dos outros antes das nossas requer disciplina. Tornar-nos as melhores pessoas que podemos ser exige escolhas, e as escolhas requerem disciplinas.
Você está desabrochando? Ou apenas sobrevivendo?
Quando nos sentimos mais plenamente vivos? Quando adotamos uma forma de disciplina. O ser humano desabrocha com a disciplina.
A disciplina é a chave da liberdade. É fácil ceder ao apelo dos prazeres momentâneos que este mundo oferece com tanta facilidade, mas todos os grandes homens e mulheres conhecem o valor de adiar as gratificações imediatas. Os heróis, líderes, campeões e santos que povoam os livros de história souberam adotar a disciplina muito bem.
Neste momento da história, o prazer e a gratificação imediata parecem ser os mestres da maioria das pessoas. Nós nos vemos escravizados e aprisionados por milhares de caprichos, anseios, vícios e apegos. Interiorizamos a ideia de que liberdade é a capacidade de fazer o que se quer, quando e onde se tem vontade, sem interferência de qualquer autoridade.
Mas liberdade não é a capacidade de se fazer o que se quer. Ser livre é ser capaz de escolher. Liberdade é a capacidade de escolher a cada momento o que é bom, verdadeiro, nobre e certo, para ir se tornando a melhor pessoa que você pode ser. Liberdade sem disciplina é impossível.
Mas a liberdade não é o centro da vida. Não. O amor é a essência da vida. O amor é a grande alegria da vida e sua maior lição. O amor é a única razão pela qual se dá a vida. Nós nos mantemos ocupados com tantas coisas e deixamos de lado, ignoramos, negligenciamos essa única e grandiosa tarefa. O amor é a principal e mais importante tarefa – amar a si mesmo, esforçando-se para se tornar a melhor pessoa possível; amar os outros, incentivando-os em sua busca para se tornarem as melhores pessoas possíveis; e amar a Deus, tornando-se tudo aquilo que você foi criado para ser.
Para amar, porém, você precisa ser livre, pois amar é entregar-se a alguém ou a alguma coisa gratuitamente, de forma completa, incondicional e sem reservas. Mas, para se entregar – a outra pessoa, a uma missão, a Deus -, é preciso primeiro se conhecer e ser dono de si mesmo. A posse de si mesmo é a liberdade. Ela é um pré-requisito para o amor e só pode ser obtida por meio de disciplina.
É por isso que tão poucos relacionamentos florescem na nossa época. A própria natureza do amor exige a posse de si mesmo. Sem autocontrole e autodomínio, somos incapazes de amar e de nos entregarmos.
O problema é que não queremos disciplina. Queremos que alguém nos diga que podemos ser felizes sem disciplina. Mas é impossível. Na verdade, se você quiser medir seu nível de felicidade, meça o nível de disciplina em sua vida. Os dois estão diretamente relacionados.
Cada passo em direção à melhor pessoa que podemos ser requer disciplina. (…)
Se não houver disciplina, não há amor.

Matthew Kelly
“Os Sete Níveis da Intimidade”, 2007
NOTA:
[1] A filosofia esotérica ensina que os deuses monoteístas são uma ilusão predominantemente medieval, fabricada por sacerdotes desinformados. Em teosofia, a palavra “deus” pode significar a Lei Universal do Equilíbrio e da Justiça. No caso do recolhimento em oração e meditação, o estudante se reúne com a voz da sua consciência, a voz sem palavras do seu próprio eu superior ou alma espiritual. O estudante é inspirado pela lei impessoal de justiça e harmonia que rege o universo.
A Palavra

Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível 
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios. 
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo. 
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

29 maio, 2017

fonte
II
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
Aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva, em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

herberto helder
O Eterno Masculino, 
para além do mecânico...

A Sexualidade Sagrada, ou o Sagrado Feminino e Masculino, andam lado a lado na vivência humana desde a sua génese, onde por repetição e inconsciência natural se proliferou a espécie. É imperativo deixar o ser irracional de vez, para que esta transformação se concretize e se torne efectiva.
O desenvolvimento natural pelo mecânico, real, racional que o homem alimentou, contrasta e complementa-se com o sensorial, místico e o idílico que a mulher sempre adornou na sua essência.
Uma dualidade yin/ yang, um complemento que ao longo da nossa(s) pequena(s) história(s) se desenrolou com normalidade, mas nem sempre com toda a naturalidade para ambos os casos. Ambas as energias se oprimiram por diferente razões e quase sempre pelos mesmos factores. A falta de auto conhecimento ou a auto indefinição do seu corpo e mente, na sua raiz energética, fizeram com que na contemporaneidade se queira inverter papeis, energias ou se viva por vezes falsas identidades.
Se por um lado é normal, entre mulheres falar-se do Sagrado Feminino, entre homens ainda é um pouco tabu viver-se/ partilhar-se o íntimo, conceitos, medos que se acumulam entre gerações, entre géneses que importa colocar a descoberto, para que a (con)vivência nos dias de hoje possa ser cada vez mais verdadeira e plena com o propósito de cada um. O “eu” individual masculino, cada um como ser uno, num processo mecânico, mas criador, sensitivo e espiritual.
É neste sentido e para que se caminhe lado a lado, que importa falar no Sagrado Masculino, na vivência íntima e solitária de cada um, para que surja uma energia unificadora, respeitadora e se envolva nos novos propósitos mundiais. Uma sexualidade espiritual, em verdade, consciência, direcionada do presente, para o presente, entre o homem e mulher, ou vice versa...
Porque nem sempre quando se juntam homens se fala de mulheres e futebol...

a.tereso
(em descoberta)

"Se um homem se separa dos seus desejos masculinos mais obscuros por liberdade, dá um nó na mangueira da sua força masculina. A sua energia não fluirá livremente, e a sua atenção será limitada por desejos insatisfeitos. Mais importante, se a sua mangueira está torcida desta maneira, ele enfraquece a sua capacidade masculina de permanecer sem medo na morte, que é vida consciente. Ele não será capaz de enfrentar o desconhecido que é o chão sem chão do Ser, e ainda funcionar a partir do seu coração, em amor."
David Deida