17 junho, 2017

PRESENÇA

Por mais que seja, queira ou viva, estou aqui, onde estou, mesmo que além e noutra parte.
Cheguei, ainda que saiba que não foi por inteiro e que o corpo está parcialmente desintegrado da alma.
A alma demora sempre um pouco mais a chegar. Não por teimosia, mas pelo vagar no tempo. O corpo esse é sempre mais apressado, mas a fracção no tempo não é muita. Eles, apesar de alguma dificuldade de comunicação, acabam por concordar e viver um para o outro. 
Uma viagem nunca acaba ao chegar, uma pessoa nunca é o que parece e a vida é mais simples do que se conta!
Estou aqui, mas este Agora prolonga-se por alguns instantes e não sei para onde me levam. E o que importa a uma alma navegante, irrequieta e nos limites que o sonho lhe dá? Saber onde está! O silêncio. O limite é a consciência, a vivência na plenitude e simplicidade da vida. O limite é entregar-me à Natureza e ao silêncio que esta me dá, para que esse amor se dê a cada permanência!
O maior presente, é ser-se PRESENTE!


a.tereso
partilha formal

Certas épocas da condição do homem sujeitam-se ao ataque de um mal que se apoia nos pontos mais desonrosos da natureza humana. No centro desse furacão, o poeta completará
Pela auto-renúncia o sentido da sua mensagem, posto o que se aliará ao partido daqueles que, tendo retirado ao sofrimento a sua máscara de legitimidade, garantem o eterno retorno do teimoso estafeta, traficante de justiça.
rené char
o bicho harmonioso

Eu gostava de ter um alto destino de poeta,
Daqueles cuja tristeza agrava os adolescentes
E as raparigas que os lêem quando eles já são tão leves
Que passam a tarde numa estrela,
A força do calor na bica de uma fonte
E a noite no mar ou no risco dos pirilampos.
Assim, gloriosos mas sem porta a que se bata;
Abstractos mas vivos;
Rarefeitos mas com o hálito nebuloso nas narinas dos animais,
Insinuado nos lenços das mulheres belas, cheios de lágrimas,
Misturado às ervas grossas da chuva
E indispensável aos heróis que vão rasgar no céu, enfim, o último sulco!
Ser a vida e não ter já vida ‑ era um destino.
Depois, dar a minha Mãe a glória de me ter tido,
A meu Pai, vendado de terra, um halo da minha luz, e tocar tudo,
Onde eu houvesse estado, de uma sagração natural:
Não digo como as Virgens Aparecidas,
Que tornam imbecis e radiosos os pastorinhos,
Mas como certo orvalho de que me lembro, em pequeno ,
Para lá da janela a luz cortada por chuva,
E uma prima que amei, a rir, molhada, chegando;
Mar ao fundo.
Tudo isto, e vontade de dormir, também em pequenino,
E logo uma mão de mulher pronta a fingir de asa aberta,
E preguiça,
Impressão de morrer do primeiro desgosto de amor
E de ir, vogando, num negrume que afinal é toda a luz que nos fica
Desse amor forrado de desgosto,
Como as estrelas encobertas,
Que, depois de girar a nuvem, mostram como estão altas:
Tudo isto seria aquele poeta que não sou,
Feito graça e memória,
Separado de mim e do meu bafo individualmente podre,
Livre das minhas pretensões e desta noite carcomida
Pelo meu ser voraz que se explora e ilumina.
Mas não. Do canto necessário
Para me diluir em som e no ar que o guardasse
(Como o nervo do degolado alonga em tremor seu pasmo)
Não chego a soltar senão uma vaga nota,
E a noite faz muito bem em vergar uma gruta sem ecos
No meu buraco vil de bicho harmonioso.
Deixarei, estampada pelo silêncio definitivo,
A ramagem fremente dos meus dedos num pouco de terra,
Estranho fóssil!

vitorino nemésio

15 junho, 2017

Ter-te de Todas as Maneiras

E, todavia, eu não quisera amar-te.
Mas ter-te, sim, de todas as maneiras.
Quem és e como és, de quem te abeiras, 
que dizes ou não dizes, pouco importa. 
E muito menos hoje me conforta.
Neste sorriso que te dou tranquilo,
eu ponho num remorso tudo aquilo
que em fundo amor eu te pudera dar-te, 
Se alguma vez te amasse de amor fundo,
senta-te à luz do mar, à luz do mundo,
como na vez primeira em que te vi, 
tão jovem, que era crime o contemplar-te.
E despe-te outra vez, pois vêm olhar-te
quantos te buscam de saber-te aqui. 
Sendo um de tantos, nunca te perdi. 

Jorge de Sena

o sonho…


saber nutrir
mais de que uma prática diária
yoga é uma disciplina para o dia a dia
é também a forma como nos nutrimos, como respiramos e como estamos
é a relação connosco próprios e com os outros
apenas ser
ashtanga yoga sintra nasce do sonho de nutrir
trazer este conhecimento e arte milenar
torná-lo claro e acessível a todos e a todas as gerações
o desafio de olhar para dentro
vivemos tempos com muitos desafios
os imediatos e concretos, sociais económicos e ecológicos
mas existem dimensões mais subtis e invisíveis
e nesta realidade o cuidar das pessoas é o maior desafio
é a criação de ideias inovadoras com valores mais éticos e justos
com respeito à natureza e integração com o todo
caminho que começa dentro e com cada um de nós
pequenos passos, simples e práticos
melhoram o nosso dia a dia
individuo e colectivo
tudo pode começar com a forma e atenção do respirar
ligar ao movimento do corpo
e depois tudo acontece….
o desafio de transformar à nossa volta

05 junho, 2017

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mario Quintana
O Amor é o Amor

O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?... 
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar! 
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois?
espírito e calor! 
O amor é o amor — e depois? 

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Vigiado'