18 junho, 2017

corpo envolto por uma linha azul

corpo envolto por uma linha azul, espessa areia fulva em toda a extensão
da folha de papel
nervuras brancas, textura das tintas, risco de lápis
outro corpo na penumbra do olho em pêlos erectos
as marés movem-se na polpa de um sexo, águas avermelhadas reflectem o
fruto incendiado
(eu sei, a verticalidade é a tua posição, mesmo durante o sonho)
mais amarelo vestindo corpos inacabados
um dentro do outro, prolongam-se para além de ti, na luz quase
comestível do amanhecer
afastados um do outro continuam a tocar-se através dum objecto, coisa
viva sem nome ainda
o lápis percorre a folha, num traço surgem os lábios de molusco, concha
aberta no crepúsculo da praia
lábios, boca, dedos alastrando, gesto agitado, flor áspera, mão abrindo-se
em pétala
cabelos emaranhados noutros cabelos, linha sulcando o rosto, o peito, a
púbis felpuda que se estende até ao horizonte do mar
noutro espaço, para lá dos corpos, minúsculos pássaros aquáticos povoam
a luz, hirtos, estáticos.
esperma, pérolas irrequietas, nervosas medusas, circulam à roda de um astro
às vezes apontas um detalhe, enches os brancos do papel
olho tecido no aveludado da alucinação, granulado de sementes, macia
pele na lentidão das maresias
cruzam-se e enleiam-se as linhas
esbatem-se cores, outro corpo de escamas ocupa o espaço
depois, o rosto louco, nocturno, quase vegetal, põe-se a latejar
animal cósmico à deriva pelo sangue, excremento vivo dalgum sonho
antigo, como o voo dos pássaros migradores
sonho oculto na noite das cidades, insónia e delírio, ele avança
corpo translúcido, espelho que te reconhece
sonho do silêncio, marés altas, superfícies povoadas, subitamente, por
um insecto de ouro
uma abelha escondida nos favos de subtis tonalidades sépia
animal fabuloso que se desloca na seiva iluminada dos bosques
um astro explode em mil outros animais, minuciosamente desenhados
inicias a metamorfose, és aqueles animais dourados, aquele astro, aquela
árvore perfurando a noite
caminhas extenuado por entre corpos desfeitos no vento, quase líquidos
e vem a noite que te queima, te inquieta, e continua
escorregam silhuetas pelas húmidas pedras, acesas por dentro
vertiginosos néons revelam a ave morta à entrada duma vulva de água
um peixe de saliva cresce em cada corpo de orvalho, expande-se
...
há dias em que o lápis te foge, resiste como um objecto estranho
persistes, esboças o rosto de cera apercebido no espelho, no fundo
quieto do rio
sorris
o lápis volta a obedecer-te
no rosto abrem-se olhos, flores, águas, cristais, lodos, geometrias, fogos,
animais sem nome
que deixas à solta fora de teu corpo, em precária liberdade

Al Berto

17 junho, 2017

PRESENÇA

Por mais que seja, queira ou viva, estou aqui, onde estou, mesmo que além e noutra parte.
Cheguei, ainda que saiba que não foi por inteiro e que o corpo está parcialmente desintegrado da alma.
A alma demora sempre um pouco mais a chegar. Não por teimosia, mas pelo vagar no tempo. O corpo esse é sempre mais apressado, mas a fracção no tempo não é muita. Eles, apesar de alguma dificuldade de comunicação, acabam por concordar e viver um para o outro. 
Uma viagem nunca acaba ao chegar, uma pessoa nunca é o que parece e a vida é mais simples do que se conta!
Estou aqui, mas este Agora prolonga-se por alguns instantes e não sei para onde me levam. E o que importa a uma alma navegante, irrequieta e nos limites que o sonho lhe dá? Saber onde está! O silêncio. O limite é a consciência, a vivência na plenitude e simplicidade da vida. O limite é entregar-me à Natureza e ao silêncio que esta me dá, para que esse amor se dê a cada permanência!
O maior presente, é ser-se PRESENTE!


a.tereso
partilha formal

Certas épocas da condição do homem sujeitam-se ao ataque de um mal que se apoia nos pontos mais desonrosos da natureza humana. No centro desse furacão, o poeta completará
Pela auto-renúncia o sentido da sua mensagem, posto o que se aliará ao partido daqueles que, tendo retirado ao sofrimento a sua máscara de legitimidade, garantem o eterno retorno do teimoso estafeta, traficante de justiça.
rené char
o bicho harmonioso

Eu gostava de ter um alto destino de poeta,
Daqueles cuja tristeza agrava os adolescentes
E as raparigas que os lêem quando eles já são tão leves
Que passam a tarde numa estrela,
A força do calor na bica de uma fonte
E a noite no mar ou no risco dos pirilampos.
Assim, gloriosos mas sem porta a que se bata;
Abstractos mas vivos;
Rarefeitos mas com o hálito nebuloso nas narinas dos animais,
Insinuado nos lenços das mulheres belas, cheios de lágrimas,
Misturado às ervas grossas da chuva
E indispensável aos heróis que vão rasgar no céu, enfim, o último sulco!
Ser a vida e não ter já vida ‑ era um destino.
Depois, dar a minha Mãe a glória de me ter tido,
A meu Pai, vendado de terra, um halo da minha luz, e tocar tudo,
Onde eu houvesse estado, de uma sagração natural:
Não digo como as Virgens Aparecidas,
Que tornam imbecis e radiosos os pastorinhos,
Mas como certo orvalho de que me lembro, em pequeno ,
Para lá da janela a luz cortada por chuva,
E uma prima que amei, a rir, molhada, chegando;
Mar ao fundo.
Tudo isto, e vontade de dormir, também em pequenino,
E logo uma mão de mulher pronta a fingir de asa aberta,
E preguiça,
Impressão de morrer do primeiro desgosto de amor
E de ir, vogando, num negrume que afinal é toda a luz que nos fica
Desse amor forrado de desgosto,
Como as estrelas encobertas,
Que, depois de girar a nuvem, mostram como estão altas:
Tudo isto seria aquele poeta que não sou,
Feito graça e memória,
Separado de mim e do meu bafo individualmente podre,
Livre das minhas pretensões e desta noite carcomida
Pelo meu ser voraz que se explora e ilumina.
Mas não. Do canto necessário
Para me diluir em som e no ar que o guardasse
(Como o nervo do degolado alonga em tremor seu pasmo)
Não chego a soltar senão uma vaga nota,
E a noite faz muito bem em vergar uma gruta sem ecos
No meu buraco vil de bicho harmonioso.
Deixarei, estampada pelo silêncio definitivo,
A ramagem fremente dos meus dedos num pouco de terra,
Estranho fóssil!

vitorino nemésio

15 junho, 2017

Ter-te de Todas as Maneiras

E, todavia, eu não quisera amar-te.
Mas ter-te, sim, de todas as maneiras.
Quem és e como és, de quem te abeiras, 
que dizes ou não dizes, pouco importa. 
E muito menos hoje me conforta.
Neste sorriso que te dou tranquilo,
eu ponho num remorso tudo aquilo
que em fundo amor eu te pudera dar-te, 
Se alguma vez te amasse de amor fundo,
senta-te à luz do mar, à luz do mundo,
como na vez primeira em que te vi, 
tão jovem, que era crime o contemplar-te.
E despe-te outra vez, pois vêm olhar-te
quantos te buscam de saber-te aqui. 
Sendo um de tantos, nunca te perdi. 

Jorge de Sena

o sonho…


saber nutrir
mais de que uma prática diária
yoga é uma disciplina para o dia a dia
é também a forma como nos nutrimos, como respiramos e como estamos
é a relação connosco próprios e com os outros
apenas ser
ashtanga yoga sintra nasce do sonho de nutrir
trazer este conhecimento e arte milenar
torná-lo claro e acessível a todos e a todas as gerações
o desafio de olhar para dentro
vivemos tempos com muitos desafios
os imediatos e concretos, sociais económicos e ecológicos
mas existem dimensões mais subtis e invisíveis
e nesta realidade o cuidar das pessoas é o maior desafio
é a criação de ideias inovadoras com valores mais éticos e justos
com respeito à natureza e integração com o todo
caminho que começa dentro e com cada um de nós
pequenos passos, simples e práticos
melhoram o nosso dia a dia
individuo e colectivo
tudo pode começar com a forma e atenção do respirar
ligar ao movimento do corpo
e depois tudo acontece….
o desafio de transformar à nossa volta

05 junho, 2017

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mario Quintana