29 julho, 2017

Valsinha


Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

Vinicius de Moraes – Chico Buarque

08 julho, 2017

NO ENTANTO

tão especiais os homens de acção
e esta liberdade de poder alongar o verso até ao extremo sem ter de prestar contas ao Criador, 
sem ter de ser realmente especial. 
e é concebível que um desses homens 
venha parar a este meu jorro, à ousadia 
de ter certezas muito desenvolvidas, certezas, também elas, 
até ao extremo absoluto da personalidade colectiva, às 
decisões pelos velhos hábitos. 
se assim é, meus senhores: sentem-se, bebam um café 
que o meu próximo poema servirá com as leis 
da consciência já alteradas, com encontros fora de prazo.
para já: entretenham-se com os meus olhos
e corrijam o que entenderem.

Sylvia beirute

06 julho, 2017

não sei se respondo ou se pergunto

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
antónio ramos rosa
Felin Uchaf,
o inicio da viagem

Rhoshirwaun é quase no fim do mundo, ou numa pequena península em Wales onde o acesso fica limitado pelos transportes. Tive a sorte que o Owin me tenha ido levar. Pelo caminho voltei a passar pela paisagem da Snowdonia e junto ao mar.
Cheguei já tarde e com pouca luz, mas a dar a volta de boas vindas fiquei logo maravilhado pelo tipo de construções e pela magia do lugar. Nessa noite convidaram-me para ir ver o nascer do sol ás montanhas. Eram 3h30 quando me levantei e foi maravilhoso. Vê-lo nascer, na floresta, à lareira e a comer porridge.
Felin Uchaf é um projeto familiar, talvez tenha nascido de uma história de amor ou num sonho a dois. Grande parte da terra no reino unido é para pastagens e ovelhas, remetendo-se a floresta para zonas mais remotas ou para os parques nacionais. Neste lugar o princípio para combater a erosão foi plantar árvores que permitissem renascer a fauna e flora do lugar que se limitava a pouco. Passados 12/ 13 anos, é impressionante a vida do lugar, a força das árvores que ocupam delicadamente o seu espaço e como as construções se harmonizaram com a envolvência. Em pouco tempo e com tempo, conseguiu-se regenerar e contribuir de forma tão significativa.


Felin Uchaf pretende ser um centro de formação, ligado às arts and crafts ou como incubadora de projetos ligados à eco construção. Grande parte do trabalho aqui realizado é em madeira, numa qualidade que nunca tinha visto. As tipologias e técnicas são diferentes das praticadas em Portugal e muito características do reino unido. Grande parte dos telhados aqui são verdes, ou realizados como antigamente, em palha (thatched roof).

Atualmente e foi aqui que eu estive a colaborar, o Dafydd está a terminar um eco edifício que servirá para workshops e como galeria, a Cammas House. Aqui estive envolvido no revestimentos e nas pinturas a cal, iniciando e terminando quase todo o trabalho (interior).

Também durante a minha estadia neste paraíso, realizei trabalhos em argila (cob), executando dois fornos. Esta tarefa foi muito enriquecedora e nutritiva. Lembrei-ma das vezes que comia brindeiras quentes após a minha avó cozer.


Paralelamente existe um belo jardim e horta, administrado e cuidado por Philippa (esposa), que abastece as refeições dos voluntários. Uma pessoa encantadora, reservada mas com quem eu privei e falei de muita coisa.
Esta zona de Wales é muito bonita, tendo uma bela costa para passeio e belas praias. A água é fria, mas para quem sempre praiou na Nazaré, não é muito diferente.
Foi também aqui que soube da morte, ou da passagem desta para outra vida, do meu avô Cristiano. Ele que me ensinou a olhar para as fases da lua, para as estações e talvez para o sobrenatural. Nesta viagem “perdi” à distância os meus últimos avós (avó paterna e avô paterno) e de certo modo isso mexeu comigo. Pela simples questão de estar longe da família deste momento.
Nesta estadia, visitei Snowdonia e também visitei o the natural building centre, administrado pelo Ned e surgiu com isso uma possibilidade futura de colaboração. Por ser incerta a data, prosseguirei viagem e logo saberei o que possa daí nascer.
Nos últimos dias, foi ficando mais tempo por Felin Uchaf por não conseguir arranjar host. A minha intenção era voltar a Inglaterra.
Esta minha passagem por este projeto, deixou uma grande semente a querer germinar e proliferar, de modo a que cada um de nós seja consciente e interveniente nas nossas escolhas e acções. Os sonhos, esses podem demorar tempo, mas concretizam-se se forem verdadeiros.

Agradeço muito e de coração por esta oportunidade e enriquecimento. É um sítio que espero voltar.

a.tereso

05 julho, 2017

És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.
E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?
E me respondias, voz trémula:
estou nascendo agora.
E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?
E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.
Era assim que dizias.
Tu eras um poeta
Eu era a tua poesia.
Mia Couto
"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos completamos mutuamente. (...)
(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra."
Casamento entre o céu e a terra. 

Leonardo Boff

04 julho, 2017

Wales,
quando não se planeia e a vida nos proporciona

Quando iniciei o voluntariado na Irlanda, estava longe de imaginar que iria percorrer os três países pertencentes com a Inglaterra ao Reino Unido. Proporcionou-se e eu aproveitei para perceber a identidade e cultura destes países que formam um conjunto de ilhas.
Em Lismore a Han (voluntária) falou-me num projeto que existiria em Wales de eco construção que eu iria gostar. Disseram que a grande dificuldade seria chegar, devido ao isolamento e distância em que ficava.
Durante esta jornada, tentei sempre nunca fazer viagens grandes e ir de projeto em projeto. Após algumas tentativas de contacto, só consegui já em Wales um hoste, ficando assim mais perto desse tal projeto.
Fiquei durante 15 dias em casa da Claire e Owim, que tem 3 lindas gatas tartaruga. Eles tem um projeto a longo prazo de reabilitar a sua casa que tens estruturas do séx. XIV e uma outra fase de construção do século XVIII. Esta está toda revestida a cimento (exterior) e tem vários problemas com humidade.
Tendo em conta da dificuldade que tinha sido encontrar um novo host, por se aproximar o verão, contactei Felin Uchaf o tal sítio que me tinham falado.


Em casa da Claire e Owin, cedo se aperceberam das minhas habilidades na reabilitação, sobretudo trabalho com argamassas (cal). O seu objetivo era terminar uma sala, para a abrir ao publico com as aulas de Yoga. E como é de objetivos que eu gosto, pus as mãos ao trabalho. Tive comigo um canadiano, o Brian (Eng.º civil). Falo nele porque é aquele tipo de pessoa que gosta de conversar e trabalhar pouco.
Na primeira semana, ajudei no jardim, na cozinha e andei a tapar remendos e a por massas novas sobre massas velhas. E como trabalho deste também eu faço em Portugal, disse-lhes porque não faziam de novo, que quase demorava o mesmo tempo. O que eu fui dizer. Nessa mesma semana, recebi a confirmação que podia ir para Felin Uchaf.


Como me coloquei a jeito, na segunda semana, trabalhei como à muito não trabalhava para acabar os rebocos e deixar tudo direitinho como eu disse que era possível.
Mesmo assim, dei belos passeios pela região e pelas praias. Apanhei dias maravilhosos. A área de Holyhead não é feia, mas é muito humanizada. Bangor é uma cidade mais interessante. Sobre a paisagem está constantemente o mar e o parque de Snowdonia.


Aqui passei 15 dias intensos, com muito trabalho, mas cumpri com os objetivos. De ajudar e de seguir caminho para o projeto que eu queria visitar.

a.tereso