Mostrar mensagens com a etiqueta poesia à solta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia à solta. Mostrar todas as mensagens

12 janeiro, 2018

a conversa


1.
A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras. A minha linguagem treme de desejo. A emoção resulta de um duplo contacto: por um lado, toda uma actividade de discurso vem acentuar discretamente, indirectamente, um significado único, que é «eu desejo-te», e liberta-o, alimenta-o, ramifica-o, fá-lo explodir (a linguagem tem prazer em tocar-se a si própria); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, acaricio-o, toco-lhe, mantenho esse contacto, esgoto-me ao fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.

(Falar apaixonadamente é gastar sem termo, sem crise; é manter uma relação sem orgasmo. Existe talvez uma forma literária para este coitus reservatus: é a afectação.)



roland barthes
fragmentos de um discurso amoroso
trad. isabel pascoal
edições 70
2017

08 outubro, 2017

morangos silvestres

Cóleos begónias avencas
aprendo o nome das plantas
e de manhã como fruta
(não era o que tu dizias?)
antes de tomar café.
Mas a seguir ao café
sobra-me um dia comprido.
Não sei que fazer sem ti
(não há morangos silvestres)
não sei que fazer comigo.

yvette centeno

16 agosto, 2017

Nossos corpos

Nossos corpos, ainda novos sob
a ansiedade gravada de nossas
caras, e inocentemente
mais expressivos que caras:
mamilos, umbigo, e pentelho
fazem de qualquer forma um
tipo de cara: ou levando
as sombras redondas ao
seio, traseiro, saco,
a dobrinha da minha barriga, o
oco da sua
virilha, como uma constelação,
como se inclina da terra ao
amanhecer num gesto de
brincadeira e
sábia compaixão-
nada como isto
vem a passar
em olhos ou bocas
abatidas.
Eu tenho
uma linha ou ranhura que amo
percorre
meu corpo do esterno
à cintura. Fala de
ansiedade, de
distância.
As suas longas costas,
a cor da areia e
como os ossos se expõem, diz
que céu após o pôr-do-sol
quase branco
sobre a profunda floresta à qual
as gralhas se dirigem, diz.
.................................................
Our bodies
Our bodies, still young under
the engraved anxiety of our
faces, and innocently
more expressive than faces:
nipples, navel, and pubic hair
make anyway a
sort of face: or taking
the rounded shadows at
breast, buttock, balls,
the plump of my belly, the
hollow of your
groin, as a constellation,
how it leans from earth to
dawn in a gesture of
play and
wise compassion-
nothing like this
comes to pass
in eyes or wistful
mouths.
I have
a line or groove I love
runs down
my body from breastbone
to waist. It speaks of
eagerness, of
distance.
Your long back,
the sand color and
how the bones show, say
what sky after sunset
almost white
over a deep woods to which
rooks are homing, says.

Denise Levertov

29 julho, 2017

It is present everywhere.
There is nothing it does not contain.
However only those who have previously
planted wisdom – seeds will be able
to continuously see it.
- Dogen

30 junho, 2017

dedos

Ligeira, principiava
a chuva de uma noite.
Ligeiros, confiavam-se
teus dedos em meus dedos.
Breve instante de adeus,
oh, por dois dias só.
Sorrias-me através
do pranto que chovia
em teu casaco de couro.
Tremor dos bruscos túneis
por onde te perco: confuso coração,
despedaço esta noite
o molho de lembranças
que tenho nos dedos. Vazios dois dias,
premiram a sombra do toque
dos teus dedos, quando eu te perdia.
gabriel ferrater

18 junho, 2017

esse verão

Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
– Tão quente tão quente
esse verão

jorge de sousa braga

25 abril, 2017

A diferença
De modo diferente, com estranheza intensa,
a paixão deslumbra-se como uma passagem
sobre as criaturas. Vento em estendais de roupa,
luzes que se acendem nas rotundas, danças nupciais
de insectos nos arbustos – assim se atravessa
a expansão do mundo. Uma atenção não prende
quando se respira com este esplendor. A solidão
sossega-nos: fica-se sagrado por um olhar facílimo
e o pensamento move-se para conhecer estames,
corolas, pares de asas. O amor nada perturba:
toca-se num corpo e não se quebra, desce-se a um nome
e a voz brilha. O tempo oferece-nos presentes.


carlos poças falcão

10 abril, 2017

rede virtual 2.

Mágoas?
Só de alguns amigos
se terem deixado confundir
pelo tempo à pressa
pelo brilho dos ecrãs
pela borboleta na lâmpada
pelos enredos das redes
antissociais

joão habitualmente

07 abril, 2017

desenho infantil
I
Os animais no alvorecer, os gritos reflectidos num plafond mais denso da neblina e devolvidos aos chiqueiros, sob a forma de raios que fulminam o gado, para subir de novo como gritos à bruma impermeável e tornar a descer: na madrugada, a aprendizagem da criança começa pela dor, que se desdobra sem descanso e a partir de si mesma.

carlos de oliveira
instinto
aceitar os dias por instinto
por dentro
um vulcão de papel
a inventar
as horas seguintes
ser tranquilamente uma terra antiga
um lugar de secura
onde adormecidas pérolas
esperam o cavar silencioso
do tempo
e colher no infinito
esse brilho adiado
como se fossem outra vez
os teus olhos

gil t. sousa

01 abril, 2017

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

Federico García Lorca

24 março, 2017

sentires...
acordas junto à sombra dos sentires
perdido no movimento azebre,
fulguras da tristura ocasional
de um tempo passado
sem prazer.
suave na sua mudez,
a terra olha-te em silêncio.
escutas a voz do perigo
entre o bem e o mal,
consegue pousar
do lado da luz
no frio que te dá ordens
do coração saltam feridas
devoradas pelo infinito
já nada sentes
embriagado na música inaudível,
expeles do teu corpo uma seiva amarga,
e imploras para renascer
de um ventre sem rosto
aguardas na praia que a maré vaze,
encontro-te...
dou-te a minha mão!
l.maltez

14 março, 2017

O BEIJO DE RODIN

não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença
e leves contradições sem alarme e gafanhotos.
não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.

Sylvia Beirute

03 março, 2017

o tímpano e a pupila

Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.

luís miguel nava

11 fevereiro, 2017

[de sete poemas da solenidade e um requiem]

7
Neste dia meu amor
os meus dedos são o candelabro que te ilumina
o único existente.
E o homem
sua esfera perdida em mãos alheias
é o objecto de malabarismo
o insecto
voltejando cega a luz que lhe irradiam
o límpido cristal corrompido
o defunto.
E este patíbulo onde o próprio carrasco se enforcará
eu o digo
será erguido como símbolo de todos os homens.
Aqui a hora vai sendo longínqua meu amor e solene.
O caminho é grande o tempo tão pouco
tenhamos muita esperança e muito ódio
e vítreas flores a ornar o teu cabelo
porque serei o homem para as transportar
e tu a última mulher que as aceitará.
E enquanto assim for
erguer-se-á a nuvem de múltiplas estrelas
a nebulosa
que dizem estar a milhões de anos-luz
mas não acreditemos bem o sabes
porque a verdade a temos em nossas próprias mãos
oculta para a contemplarmos agora.

carlos eurico da costa

10 fevereiro, 2017

Área Branca / 55

Penso a minha vida
no âmago das imagens.
Nas esferas dos jacarandás
que borbotam de flores e folhas.
Nesse alpendre de buganvília.
Crio o hábito de possuir
os elementos naturais que vão
comigo para as jornadas interiores através das ruas.
Estas flores que florescem
simultaneamente na primavera
e se acumulam nos parques
cativam-me. Somo-as a todas
as outras com que sonho.
As vivências que guardo
ciosamente para ampliar
as minhas visões. Rosinhas
claras e minúsculas nas sebes.
(...)

Fiama Hasse Pais Brandão

05 fevereiro, 2017

no tempo em que éramos felizes

no tempo em que éramos felizes não chovia.
levantávamo-nos juntos, abraçados ao sol.
as manhãs eram um céu infinito. o nosso amor
era as manhãs. no tempo em que éramos felizes
o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos.
as marés traziam o fim da tarde e não víamos
mais do que o olhar um do outro. brincávamos
e éramos crianças felizes. às vezes ainda
te espero como te esperava quando tu chegavas
com o uniforme lindo da tua inocência. há muito
tempo que te espero. há muito tempo que não vens.

josé luís peixoto

31 janeiro, 2017

maresia



Neste mar à minha frente
O sol repousa e os nossos olhos dormem…

– Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas como um bafo de areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado…

Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo da areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,

Sei que me lembram os signos do zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!…

E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior
Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que não se parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra

AMOR.


antónio pedro

28 janeiro, 2017

Aula de amor

Mas, menina, vai com calma
Mais sedução nesse grasne:
Carnalmente eu amo a alma
E com alma eu amo a carne.

Faminto, me queria eu cheio
Não morra o cio com pudor
Amo virtude com traseiro
E no traseiro virtude pôr.

Muita menina sentiu perigo
Desde que o deus no cisne entrou
Foi com gosto ela ao castigo:
O canto do cisne ele não perdoou.

Bertolt Brecht



23 janeiro, 2017

Amo-a.
Talvez por isso, em certos dias, quando consigo ficar sozinho, sentado num banco de jardim, passeamos juntos. Temos muito para dizer um ao outro, mas escolhemos caminhar em silêncio. E paramos. Fechamos os olhos e ficamos, lado a lado, apenas sentindo a presença um do outro, apenas escutando a respiração do outro em todo os sons da natureza e da cidade. E, mais do que uma vez, desejei ver em muros, entre as palavras com que os alunos dos liceus escrevem a caligrafia da sua inocência, os nossos nomes juntos: «Zé Luís ama Clarice». Como uma promessa de eternidade para aquilo que todos sabem perdido, exceto nós. Como uma prova em que ninguém acredita, exceto nós.

José Luís Peixoto, in "Abraço"