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04 março, 2018

Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses 
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
[em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner

21 janeiro, 2017

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.

Sophia de Mello Breyner Andresen

05 outubro, 2016

se todo o ser ao vento abandonamos

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus, em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma beberá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

sophia de mello breyner andresen

21 março, 2016

Terror de Te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 
Mal de te amar neste lugar de imperfeição 
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa. 
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas. 
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”

17 fevereiro, 2016

AS MINHAS MÃOS

As minhas mãos mantêm as estrelas, 
Seguro a minha alma para que se não quebre 
A melodia que vai de flor em flor, 
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim 
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas. 


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN 

In Coral, 1950 

20 janeiro, 2016

noite

Noite de folha em folha murmurada,
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptivel em gestos quietos.


sophia de mello breyner andresen

10 janeiro, 2016

Poema azul de sophia de mello breyner,
voz de Maria Bethania
 

https://www.youtube.com/watch?v=Wz2n3Yam6po

27 novembro, 2015

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento
Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen

15 setembro, 2015

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.
Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "Poesia", 1945

21 março, 2015


És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante, 
Em que é pleno e perfeito cada instante

Sophia de Mello Breyner

25 fevereiro, 2015

Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

28 setembro, 2014

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "Poesia", 1945

30 julho, 2014

Há mulheres que trazem o mar nos olhos


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen

18 julho, 2014


noite


Noite de folha em folha murmurada,
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptivel em gestos quietos.


sophia de mello breyner andresen
obra poética I
dia do mar 1947
caminho
1999

13 julho, 2014

Um dia


Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen

05 julho, 2014

espera

Dei-te a solidão do dia inteiro,
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

sophia de mello breyner andresen
obra poética I
dia do mar 1947
caminho
1999

01 julho, 2014

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem



Sophia de Mello Breyner Andresen





Sophia de Mello Breyner nasce a 6 de novembro 1919 no Porto, onde passa a infância. 
Entre 1936 e 1939 estuda Filologia Clássica na Universidade de Lisboa. Publica os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. 
Casada com Francisco Sousa Tavares, passa a viver em Lisboa. Tem cinco filhos. Participa ativamente na oposição ao Estado Novo e é eleita, depois do 25 de Abril, deputada à Assembleia Constituinte.
Autora de catorze livros de poesia, publicados entre 1944 e 1997, escreve também contos, histórias para crianças, artigos, ensaios e teatro. Traduz Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses.
Recebeu entre outros, o Prémio Camões 1999, o Prémio Poesia Max Jacob 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.

Com uma linguagem poética quase transparente e íntima, ao mesmo tempo ancorada nos antigos mitos clássicos, Sophia evoca nos seus versos os objetos, as coisas, os seres, os tempos, os mares, os dias. A sua obra, várias vezes premiada está traduzida em várias línguas.
Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu a 2 de julho de 2004, em Lisboa.

in http://www.portoeditora.pt/campanhas/sophia-de-mello-breyner-andresen