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06 julho, 2017

Felin Uchaf,
o inicio da viagem

Rhoshirwaun é quase no fim do mundo, ou numa pequena península em Wales onde o acesso fica limitado pelos transportes. Tive a sorte que o Owin me tenha ido levar. Pelo caminho voltei a passar pela paisagem da Snowdonia e junto ao mar.
Cheguei já tarde e com pouca luz, mas a dar a volta de boas vindas fiquei logo maravilhado pelo tipo de construções e pela magia do lugar. Nessa noite convidaram-me para ir ver o nascer do sol ás montanhas. Eram 3h30 quando me levantei e foi maravilhoso. Vê-lo nascer, na floresta, à lareira e a comer porridge.
Felin Uchaf é um projeto familiar, talvez tenha nascido de uma história de amor ou num sonho a dois. Grande parte da terra no reino unido é para pastagens e ovelhas, remetendo-se a floresta para zonas mais remotas ou para os parques nacionais. Neste lugar o princípio para combater a erosão foi plantar árvores que permitissem renascer a fauna e flora do lugar que se limitava a pouco. Passados 12/ 13 anos, é impressionante a vida do lugar, a força das árvores que ocupam delicadamente o seu espaço e como as construções se harmonizaram com a envolvência. Em pouco tempo e com tempo, conseguiu-se regenerar e contribuir de forma tão significativa.


Felin Uchaf pretende ser um centro de formação, ligado às arts and crafts ou como incubadora de projetos ligados à eco construção. Grande parte do trabalho aqui realizado é em madeira, numa qualidade que nunca tinha visto. As tipologias e técnicas são diferentes das praticadas em Portugal e muito características do reino unido. Grande parte dos telhados aqui são verdes, ou realizados como antigamente, em palha (thatched roof).

Atualmente e foi aqui que eu estive a colaborar, o Dafydd está a terminar um eco edifício que servirá para workshops e como galeria, a Cammas House. Aqui estive envolvido no revestimentos e nas pinturas a cal, iniciando e terminando quase todo o trabalho (interior).

Também durante a minha estadia neste paraíso, realizei trabalhos em argila (cob), executando dois fornos. Esta tarefa foi muito enriquecedora e nutritiva. Lembrei-ma das vezes que comia brindeiras quentes após a minha avó cozer.


Paralelamente existe um belo jardim e horta, administrado e cuidado por Philippa (esposa), que abastece as refeições dos voluntários. Uma pessoa encantadora, reservada mas com quem eu privei e falei de muita coisa.
Esta zona de Wales é muito bonita, tendo uma bela costa para passeio e belas praias. A água é fria, mas para quem sempre praiou na Nazaré, não é muito diferente.
Foi também aqui que soube da morte, ou da passagem desta para outra vida, do meu avô Cristiano. Ele que me ensinou a olhar para as fases da lua, para as estações e talvez para o sobrenatural. Nesta viagem “perdi” à distância os meus últimos avós (avó paterna e avô paterno) e de certo modo isso mexeu comigo. Pela simples questão de estar longe da família deste momento.
Nesta estadia, visitei Snowdonia e também visitei o the natural building centre, administrado pelo Ned e surgiu com isso uma possibilidade futura de colaboração. Por ser incerta a data, prosseguirei viagem e logo saberei o que possa daí nascer.
Nos últimos dias, foi ficando mais tempo por Felin Uchaf por não conseguir arranjar host. A minha intenção era voltar a Inglaterra.
Esta minha passagem por este projeto, deixou uma grande semente a querer germinar e proliferar, de modo a que cada um de nós seja consciente e interveniente nas nossas escolhas e acções. Os sonhos, esses podem demorar tempo, mas concretizam-se se forem verdadeiros.

Agradeço muito e de coração por esta oportunidade e enriquecimento. É um sítio que espero voltar.

a.tereso

04 julho, 2017

Wales,
quando não se planeia e a vida nos proporciona

Quando iniciei o voluntariado na Irlanda, estava longe de imaginar que iria percorrer os três países pertencentes com a Inglaterra ao Reino Unido. Proporcionou-se e eu aproveitei para perceber a identidade e cultura destes países que formam um conjunto de ilhas.
Em Lismore a Han (voluntária) falou-me num projeto que existiria em Wales de eco construção que eu iria gostar. Disseram que a grande dificuldade seria chegar, devido ao isolamento e distância em que ficava.
Durante esta jornada, tentei sempre nunca fazer viagens grandes e ir de projeto em projeto. Após algumas tentativas de contacto, só consegui já em Wales um hoste, ficando assim mais perto desse tal projeto.
Fiquei durante 15 dias em casa da Claire e Owim, que tem 3 lindas gatas tartaruga. Eles tem um projeto a longo prazo de reabilitar a sua casa que tens estruturas do séx. XIV e uma outra fase de construção do século XVIII. Esta está toda revestida a cimento (exterior) e tem vários problemas com humidade.
Tendo em conta da dificuldade que tinha sido encontrar um novo host, por se aproximar o verão, contactei Felin Uchaf o tal sítio que me tinham falado.


Em casa da Claire e Owin, cedo se aperceberam das minhas habilidades na reabilitação, sobretudo trabalho com argamassas (cal). O seu objetivo era terminar uma sala, para a abrir ao publico com as aulas de Yoga. E como é de objetivos que eu gosto, pus as mãos ao trabalho. Tive comigo um canadiano, o Brian (Eng.º civil). Falo nele porque é aquele tipo de pessoa que gosta de conversar e trabalhar pouco.
Na primeira semana, ajudei no jardim, na cozinha e andei a tapar remendos e a por massas novas sobre massas velhas. E como trabalho deste também eu faço em Portugal, disse-lhes porque não faziam de novo, que quase demorava o mesmo tempo. O que eu fui dizer. Nessa mesma semana, recebi a confirmação que podia ir para Felin Uchaf.


Como me coloquei a jeito, na segunda semana, trabalhei como à muito não trabalhava para acabar os rebocos e deixar tudo direitinho como eu disse que era possível.
Mesmo assim, dei belos passeios pela região e pelas praias. Apanhei dias maravilhosos. A área de Holyhead não é feia, mas é muito humanizada. Bangor é uma cidade mais interessante. Sobre a paisagem está constantemente o mar e o parque de Snowdonia.


Aqui passei 15 dias intensos, com muito trabalho, mas cumpri com os objetivos. De ajudar e de seguir caminho para o projeto que eu queria visitar.

a.tereso



20 maio, 2017

Intensidade na leveza das manhãs,
Lismore uma realidade presente em Thomas Morus

Aqui em Lismore senti-me em casa, mas também foi aqui que vivi dos dias mais intensos e reflectivos. A percepção da condição que me alberga no momento.
Talvez aqui me tenha apercebido que importa não levar ao limite o esforço e que se deve por vezes, parar. É raro cansar-me, ou não recuperar numa noite o esforço do dia anterior. O viver de objetivos e no limite pode nos condicionar. Apesar deste raciocínio e de ser a mente a limitar-nos e não o corpo, tudo surgiu por ter feito um entorse no tornozelo. Talvez pela descontração e relax que aqui vivi. Sem grandes preocupações e feliz. Verdadeiramente por estar a contribuir e de certo modo a viver um sonho.
Assustei-me pois parecia que nunca tinha feito um entorse tão grave. Pensei que tivesse partido o pé. Fui forçado a parar e apesar de querer ir ao hospital, acabei por não ir. Tudo isto ajudou a que a dor do joelho passa-se. Passados dois dias percebi que não deveria ser tão grave. Descansei durante quatro dias, dei muitos mimos ao pé (gelo, pomada) e após esses dias voltei ao trabalho com todos os cuidados, como se de fisioterapia se tratasse.


Após a construção da parede de pedra, tinha como objetivo ajudar na construção das paredes em fardos de palha e nos rebocos. Assim aconteceu naturalmente. Nesses dias empenhei-me a fazer e aprender o máximo. Foi intenso mas maravilhoso ver a crescer as paredes, a passar os dias e perceber o detalhe deste tipo de construção. Apesar do cansaço, por vezes custava parar. Também por sentir que deveria ir, continuar a viagem.
Houve reforço de equipa (voluntários) e plano de avançar para se terminar o mais possível. Dias intensos, mas felizes e de convívio. Comecei então a pensar mais a sério em um novo projeto e terminar o que me tinha proposto finalizar, os rebocos em cal.
Foi também nas ultimas semanas que recebi a notícia da morte da minha querida avó Conceição. Alguém que me marcou muito na minha vida, pela sua descontração, sorriso e energia. Alguém de quem eu sinto que herdei mais do que aquilo que sei. Alguém que se manterá viva em mim, pela sua simplicidade e grandeza.


Foi em Lismore que me senti em casa, feliz, com dias intensos, voltei a ver cordeiros a nascer, numa imensidão de natureza, mas sabia que teria que continuar. Custa-me sempre mudar de projeto. Cria-se sempre alguma ansiedade, não pela mudança ou desconhecido, mas por mais uma vez ter que criar formas de comunicação. Isto porque o inglês anda sempre mais devagar, que eu próprio. Por preguiça e adversão.
Se tiver oportunidade voltarei a este sítio e conhecerei mais esta zona da Escócia que é maravilhosa pela sua monumentalidade paisagística. Sou grato a tudo o que aqui vivi, pois permitiu-me perceber da minha invencibilidade e que nem sempre conseguirei controlar/ moldar as coisas como eu quero. Conhecer os limites e tornar consciente a importância do culto da mente sobre o corpo. Valorizar cada vez mais, com presença as pessoas que por nós são queridas e uma referência. Viver para além da materialidade.



Até já Utopia!
(19-04-17)

25 março, 2017

Lismore, 
a ilha dos sonhos


Faz hoje precisamente 3 semanas que desembarquei em Lismore. Pequena ilha, dentro da ilha que pertence à Escócia. Pelo caminho tive que fazer as montanhas e tive a sorte de ter nevado nos dias anteriores. Foi uma viagem mágica onde praticamente só se via montanha, paisagem e uma pequena estrada que nunca se sabia se ia continuar. Para isso também ajudou o nevoeiro.
Este projeto surgiu do nada, após conversa com o Jeremy (na KRISHNA ECO FARM) por casualidade, pois ele foi lá um único dia e nesse dia fomos ajuda-lo a limpar um terreno que ele lá tinha perto. No final falei-lhe dos meios interesses e intuitos e ele passou-me o contacto do Yorick seu amigo.
Contactei o Yorick e Sarah, disse-lhes que tinha muito interesse em conhecer o seu projeto e ajuda-los na construção da sua eco casa e eles lá me aceitaram.
Após aquela viagem mística, chegar e ver um pequeno barco de transporte e uma pequena ilha rodeada de montanhas brancas permitiu respirar fundo e sentir que este seria um bom encontro.


E assim tem sido. Lismore é pequeninha mas acolhedora e em cada recorte temos sempre ovelhas a dar-nos as boas vindas. Apesar do vento que por vezes se faz sentir, tem um céu magnífico e um enquadramento paisagístico muito bonito.
Relativamente ao projeto, pela primeira vez estou num projeto que me identifico, com uma alimentação mais cuidada e equilibrada, apesar de se fazerem sentir os verdes. Mas toda esta permanência, tem-me feito pensar na dureza dos anteriores anciões destes lugares, sujeitos à dança do tempo, da chuva e do frio, com a dureza que isso trás para as culturas de subsistência.
Os primeiros dias são sempre de observação e conhecimento, mas até nisso aqui foi mais fácil. O Yorick e a Sarah desde cedo ajudaram com o inglês, com a musica, com a simpatia que os caracteriza e isso tem ajudado.
Apesar de uma dor no joelho, que se iniciou em Edinburgh e que só agora começa a atenuar, tenho dado bonitos passeios e desfrutado da ilha. Tive a sorte num destes fins de semana ter havido uma festa comunitária com Ceilidh, tendo sido muito elogiado pelos dotes de dançarino pelas locais.


Relativamente à casa, nos primeiros dias construí uma parede em alvenaria de pedra e cimento. Fez-me confusão na altura a utilização do cimento, mas é o que mais perto por aqui há, tornando-se o mais económico e a sua utilização foi mínima. Após esta primeira tarefa e algumas conversações sobre eco construção, convenci que seria uma boa ajuda nas paredes em fardos de palha, sobretudo por grande conhecimentos de revestimentos tradicionais em cal.
E é aqui que fico para já e deixo para um próximo post mais histórias. Ainda não tenho data para ir, mas acredito que nos próximos dias tome essa decisão. Pretendo só concluir alguns objetivos no trabalho que iniciei para seguir caminho para a próxima aventura...


a.tereso

23 março, 2017

Edinburgh,
paragem refrescante!


Andes de embarcar no meu próximo destino, passei por Edinburgh por ter referências de uma amiga que iria gostar. E assim foi. Gostei da cidade, da sua orgânica e da sua envolvência. É uma cidade pequena, mas bonita e com um centro histórico bem preservado (apesar dos filmes e crostas negras). Tem no horizonte um grande relevo e o mar.
Deu para perceber diferentes contextos e história desta cidade comparativamente a Glasgow. Edinburgh é uma cidade com mais história, também mais envelhecida e com uma classe predominante mais alta. Glasgow também tem uma estrutura antiga, mas já mais ténue e sobressaindo a dinâmica que os novos edifícios lhe dão. Glasgow é mais industrial e isso denota-se nos atuais tecidos urbanos.


Em Edinburgh, como noutros sítios por onde passo, tento conhecer museus, jardins, um pouco da história e as dinâmicas no tempo, em redor da religião, arquitectura e arte. É importante para mim perceber a identidade, os hábitos, a forma como vivem e interagem com o mundo. Global e onde se inserem.
Em Edinburgh fui a uma noite de danças tradicionais, as Ceilidh e diverti-me como já não o fazia à muito. Senti-me em casa, apesar de ir sozinho e não conhecer ninguém. Como sempre, ser homem num meio mais frequentado por mulheres, trás vantagem. Ter já um pouco a noção dos ritmos e da coisa, também ajuda na compreensão dos passos e no seguir em frente sem a vergonha inicial. Fiquei apaixonado pelas danças, ambiente e envolvimento comunitário que estas tem. São sempre em roda, dando-lhe algum misticismos. E claro está, depois de três semanas quase sem ver uma mulher, parecia um adolescente de peito cheio a querer brilhar.
https://www.youtube.com/watch?v=Jfq6b2CAr5I&feature=em-upload_owner



Nos três dias fiquei em casa da Rita, que não conhecia, mas que me abriu as portas por intermédio da minha querida amiga Simões. Estar fora do país, permite conhecer pessoas e sobretudo criar um elo logo de inicio pela proximidade identitária. Por momentos voltasse a falar no país, sobre assuntos do país e isso torna-nos mais emigrantes, mas ao mesmo tempo mais próximos de casa.
Foram dias bem passados, com grandes caminhadas e pensamentos que nem sempre me faziam estar onde estava. Isso é frequente, mas atenuasse sempre que voltamos a chegar a um sítio que nos faz sentir em casa.

Próximo destino, LISMORE.
a.tereso

12 março, 2017

KRISHNA ECO FARM
O primeiro grande desafio

Após estar uns dias em Glasgow, passei 19 dias em Lesmagow na Krishna Eco Farm. Nunca se sabe o que se vai encontrar e por mais que não se queira fazer grandes expetativas, a mente deambula sempre para encontrar pontos incidentes. A curiosidade antes de mais, era saber como vivia uma comunidade espiritual, como se organizava e conciliava o seu dia a dia com o mundo terreno.
Talvez seja esse o meu problema. Criar expectativas, construir conceitos e ideias antes de iniciar. Talvez esse princípio de presente esteja distante e seja difícil de concretizar ainda. É por isso que decidi escrever após a minha estadia, para que fosse respeitante com as premissas e esse presente (ausente).
Claro que a experiência foi muito enriquecedora e permitiu-me ouvir-me uma vez mais. Andamos todos a tentar encontrar estratégias de vida que nos aproximem mais de nós e do divino. Seja qual for o caminho escolhido.
Antes de ir, pouco conhecia do movimento Krishna e o que me vinha à cabeça era de ver pessoas a cantar e dançar na rua. Agora que sai, ainda pouco sei sobre a filosofia para questionar ou glorificar, mas ficou a curiosidade de aprofundar este sistema de vida. Claro está que apreendi o modus vivendi desta comunidade, mas prefiro ser eu a interpretá-lo por mim, através das escrituras.



Escolho os locais pelo tipo de projeto, mas algo tem pesado bastante, se tem uma alimentação vegetariana. Este era o único local na Escócia na rede com este modelo de alimentação. E de facto, tem sido a alimentação a maior dificuldade, muitas vezes por não existir estrutura nutricional e balanço nas refeições. Se até aqui pude ter interferência, neste projeto limitava-me a sentar e comer. Comida como se tivesse na índia, com os mesmos temperos e simplicidade e quase sempre a mesma! Arroz e curry de lentilhas!
A minha maior dificuldade foi não perceber onde a vida espiritual se interligava com a vida terrena, no dia a dia. Foi perceber que o princípio comunitário muitas vezes não vai para além do Templo. Foi perceber que o conceito ECO, de sustentabilidade não está enraizado e pouco prevalece nas refeições. Foi entender que muitas vezes ter meios, não dá a força e produz à ação. Claro está, tendo em conta que estas minhas observações serão redutoras e exageradas. Que possivelmente o inverno condiciona este interligar e que o pouco que se faz é um passo grande no objetivo geral.
Os primeiros dias foram difíceis por perceber que as tarefas estavam delineadas com uma estrutura desorganizada, sem grande preocupação, objetivos e visão global. Esperei para ver, para conhecer os intervenientes, para ter a leitura geral do sítio, das pessoas e da filosofia vigente. Fui dando-me a cada dia, do meio jeito, com atitude e prática.
Conto-vos algo que mudou a minha vida à uns tempos (muito antes de vir). Pensei: se despendo energia e tempo numa ação, quero que esse intuito, esse momento seja bem empregue, por inteiro e integro. A importância do detalhe, das pequenas coisas. É com esse espirito que parto para o que quer que seja. Limpar a casa, cozinhar, cuidar da horta, estar com pessoas....
Conto-vos que a primeira vez que limpei a carrinha (o meu pai que não saiba, uma vez que pouco cuidado tinha com a limpeza do meu carro) e a casa (ashram masculino), grande parte das pessoas vieram-me dar os parabéns.
Nos primeiros dias na horta fiz análise do solo, das condições que tinham, tentei perceber se o estado climatérico era similar ao do Irlanda do Norte, objetivos, etc.. Após isso indiquei possibilidades, dei estratégias, possibilitei troca de ideias e pesquisa. Passei a ser venerado por sugerir, por fazer pensar, por fazer e agir... Muitas vezes esse é o meu principal objetivo, que as pessoas pensem por elas e dêem intuito ao que fazem. Possam pesquisar e saber mais, de modo a que a acção, o tempo seja bem empregue e em benefício global (natureza).


Muito havia por contar da minha intensidade dos dias. Os detalhes ficam para mim e para quem os viveu. Dou esta experiência como bem empregue, enriquecedora e única. O que me ri e me vou rir à conta desta experiência. Quantas vezes cantei “HARE KRISHNA, HARE KRISHNA, KRISHNA KRISHNA, HARE HARE, HARE RAMA, HARE RAMA, RAMA RAMA, HARE HARE”.

Que se continue no encontro do espiritual, de braços dados com a Mãe TERRA. No ultimo dia, o Charanga chegou junto a mim com um desenho/ plano da horta, com um pequeno esquema de consociações, cheio de design... e é isso que me faz continuar a acreditar.

a.tereso

20 fevereiro, 2017

Sob o céu de Glasgow
jardins e hortas comunitárias

Após a Irlanda do Norte, fui desembarcar a Glasgow, Escócia. Nunca tive muitos planos para cá vir, mas estando por perto, acabei por fazer contactos e encontrar pontos de interesse. Claro está, que as referências às paisagens “brutais” escocesas sempre me deixaram água na boa e fizeram com que os planos também se ajustassem. A ver vamos o que isto dá.
Tinha feito um contacto no final do ano passado, por referência de uma amiga, a uma permacultora com muita experiência que residia em Glasgow. Voltei a contactar a Abi Mordin no início do ano a dizer que estava por perto e ela abriu-me as portas de casa. Ai fiquei uns dias para a conhecer, conhecer os seus projetos e conhecer Glasgow.


Foram dias calmos, de partilha e conhecimento. Falou-me dos seus projetos e tive oportunidade de visitar dois. Também houve tempo, claro, para visitar a cidade e conhecer “um pouco” mais desta cultura.



É curioso, cada vez mais as cidades me parecem iguais e com dinâmicas semelhantes. Sobretudo a cultura de rua, as zonas comerciais e centrais. Valha-nos os pormenores, os museus e algo que ainda nos transmite identidade e cultura local.



Deixo-vos então imagens, cores, de dias bem passados que ficam inscritos nesta viagem.

a.tereso


17 fevereiro, 2017

Espuma dos dias,
calçada dos gigantes (Causeway Coast)

Uma das coisas que mais me marcou na Irlanda (Norte) foi não existir enxadas para cavar e existirem ovelhas sem mais não. Tudo o demais me parece plausível neste contexto e no mundo onde vivemos.
Algo ainda muito presente é a presença da guerra (The Troubles)  que decorreu na segunda metade do século XX, pelos murais, pelas marcas de armas e relevância desse momentos em museus e nas pessoas. Tratou-se numa guerra civil, em primeiro lugar, da população protestante (maioria), em favor de preservar os laços com a Grã-Bretanha, e do outro lado a população católica (minoria), em favor da independência ou a integração da província com a República da Irlanda. Apesar de já não se sentir esses muros de outrora, o Brexit veio criar novos burburinhos não só por aqui, mas em todo Reino Unido, pela falta de palavra que os países ditos secundários não tem tido.
Relativamente às ovelhas, é impressionante tanto o verde, como a sua presença na paisagem. Questionei-me muitas vezes por quê ter tantos animais e não ter quase produção de vegetais e cereais! Será só por causa do tempo enquanto estado climatérico? Será por herança e sempre foi assim? Ou será por perda de identidade, comodismo e subjugação ao sistema capitalista? Não sei dizer por certo, mas incomoda-me sentir esta subjugação, esta perda de memória e identidade.



Visitei Belfast de passagem e Derry por oportunidade. Tudo sem grandes planos e por acabar por acontecer. A viagem tem sido um pouco assim. Tenho muitos locais identificados, de interesse mas tenho tudo aberto, com dinamismo e passível de se concretizar.
Permaneci e descobri Derry pela companhia, amizade e gosto que é ter a Mara por perto. Foi ela que me desafiou a partilhar-mos um pouco mais de nós e eu aceitei. Importa partilhar intimidade, amizade e muitas vezes sair de encontros ocasionais, de olás à distância e de momentos pontuais. Os silêncios importam, mas por vezes a presença sensorial acrescenta calor. Passamos uma semana bem passada. Entre cozinhados, partilhas, risos, filmes e caminhadas.



A maior aventura foi o passeio a 
Causeway Coast, área de uma imensidão paisagística brutal, onde a terra vulcânica se deixa penetrar pelo mar, ou quiçá seja o contrário. Parte deixo-vos em imagens, mas o intangível fica nos pequenos gestos, momentos, coisas que a objetiva, as palavras não permitem alcançar. É esta a espuma dos dias!
a.tereso

13 fevereiro, 2017

A fuga do tempo
Tullyquilly House até já

Já não escrevo estas palavras no seu tempo e quiçá não o recupere. Estou em simultâneo no passado e presente. Isto faz com que a realidade, o momento se perca e seja transformado. Já estou com uma ideia ausente e longínqua do que sucedeu. Já será um julgamento, uma observação de um tempo/ período que passou e não volta mais. Apesar disso, escrevo e pretendo ficar no tempo. Neste em que agora vivo.
A vida é uma constante celebração, ou será este um dos bens maiores princípios da vida. Os últimos dias na Tullyquilly House foram então de celebração. Celebração do encontro, do momento em que cada um vive e dos objetivos que cada um se propôs cumprir e que se cruzam num todo, quer queiramos ou não.
Cumpri-me, cumpriu-se e enraizou-se silêncios. Houve um momento em que nos confrontamos, talvez para que a realidade se cumprisse e todos pudessem sair mais fortes. Foi aquando um dos afazeres na floresta. Transplante de árvores. Algo que considero sagrado, íntimo e de alguma responsabilidade. O objetivo era replantar árvores, sem ter grande consideração por elas. Ofereci então e parte do meu tempo para que o trabalho fosse feito com mais coração e não só fazer por fazer e daqui a uns anos cortar as árvores. Não estava feliz com que estava a fazer e disse. A vida tem significada para tudo e para todos. Uma árvore é uma vida, é húmus, é ar, sombra, energia, um abrigo, um poleiro, etc..
Sei que nestes tempos, por estar por vezes “longe”, longe de mim, que estou mais sensível, mais frágil. Também um pouco pela ausência de açúcar, que sempre que posso afasto, conscientemente mas que interfere inconscientemente comigo.
Nos últimos dias, subia à montanha mais alta da Irlanda do Norte. Não que fizesse questão, pois para mim por vezes “a melhor vista é a meia encontra”, mas por estar em conjunto com alguém que queria muito esse desafio. Gelei, digo-vos, passei um bocado mal por não ir preparado para tal. Fiquei com as mãos como nunca tinha ficado. Mas deu para me sentir humano, real e isso foi bom. Por vezes endeuso-me e fico na minha retórica.
Ficam tantas outras coisas por contar, as pequenas coisas. Os pores do sol, o acender e estar à lareira, o pão quente diário, ou a simples companhia diária dos Robins. Os olhares e os silêncios, mas esses começam a ser integrantes, quando as palavras ganham insignificância, sejam elas em que língua.

Um até já...

a.tereso

07 fevereiro, 2017

Cultura permanente
Um olhar sobre as pequenas coisas

Antes de falar nos últimos dias da Tullyquilly House, quero-vos entrar em detalhe do que é para mim, neste momento a permacultura.
Terei que recuar, ou remeter para outros o que em mim habita e o significado que para mim tem essa cultura permanente.
A meu ver e sem grande rodeios, saber interagir e conhecer o meio, onde pretendemos habitar, construir, semear, colher e partilhar, é um dos princípios da subsistência, da sobrevivência ou da interação natural da nossa condição com as que nos envolvem.
Olhar às fases da lua, reconhecer cada estação, a importância das sobras, da exposição do sol, ou a orientação dos pontos cardeais, são naturais referências energéticas do nosso dia a dia, que por vezes nos esquecemos na nossa vida. As pequenas coisas. Quanto mais olhar para o solo, a micro fauna ai existente e a sua importância para as culturas agrícolas. Eco sistema, onde interagimos e vivemos, que importância têm, como respeitar, conhecer e cohabitar?


Algo que os meus avós e outras tantas ancestrais almas harmoniosas, foram praticando por necessidade e naturalidade, para tirar o melhor partido da terra e para si mesmo. Para vencer a fome e contrariar pobreza dos solos, necessidades humanas de sobrevivência.
Claro que com o meu percurso de vida, o estudo da macrobiótica, agricultura biológica, interesse pela biodinâmica e a leitura do Masanobu Fukuoca, interligaram tudo e ajudaram a fazer sentido.
“Nós somos o que comemos”, dai importar muito o que comemos e sabermos de onde vêm as coisas. Já à algum tempo que semear, cuidar, colher, é um ato de cuidar de mim, é um ato meditativo e de rejuvenescimento. Talvez tenha sido esta a maior herança que recebi dos meus antepassados. A simplicidade de olhar para a terra sem proveito fácil, com generosidade e equilíbrio, permitindo-me interagir nos eco-sistemas que se interligam, de forma natural.


Foi um pouco disto que tentei transmitir ao Stewart. Saber observar e interagir em harmonia com o meio. Claro que ao empirismo, importa anexar pesquisa e conceitos técnicos. A constituição, equilíbrio do solo, são fundamentais para uma boa nutrição, assim como a consociação e rotatividade de culturas. Conhecer as pragas, fungos e auxiliares naturais, ajuda numa primeira fase, até que o “teu” ecosistema encontre um equilíbrio entre as partes. A nós, cabe-nos observar, nutrir, potencializar a natureza, de forma leve e equilibrada.

Observei a área. Coordenadas, pontos de água, área selvagem, área para cultivo, espaço, materiais, solo, árvores existentes, o que o Stewart pretendia, que investimento queria fazer. Estudei o clima e o tipo de culturas habituais. Esbocei um plano, o que considerava ser apropriado do geral para o particular. O que tinha, poderia arranjar e o que não havia disponibilidade. Sítio para abrigo de auxiliares, compostagem, estufa (produção e sementeira), flora auxiliar, culturas a considerar, consociações, etc. Voltei a pegar em lápis de cor, os que haviam e desenhei. Deixei parte do projeto nas mãos do Stewart, mas foi bom esta observação, interação e partilha.


São estes os meus princípios permanentes e que tento aplicar no meu dia a dia, que me foram transmitidos.

Partilho-vos também os princípios da permacultura.

Continuarei nesta pesquisa, empírica mas também técnica, para que seja cada vez mais leve e menos intrusivo neste grande eco sistema que é Natureza.


a.tereso