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27 maio, 2017

P: Eu vejo que funciono de forma mais inteligente!
Krishnamurti: Não sei senhor, aprofunde, aprofunde. Não diga nada, descubra. Descubra porquê que acumula!
Se a mente tem medo de ficar vazia, a acumulação torna-se imperativa.


Krishnamurti


https://www.youtube.com/watch?v=yW9Kt4UovX8

05 outubro, 2016

Se não investigarmos o significado da vida, a capacidade e o talento dará ênfase e importância ao «eu» e aos seus apegos. E isso tem tendência a tornar o indivíduo egocêntrico e separatista; ele sentir-se-á como uma entidade separada do resto, um ser superior, o que gera muitos malefícios, lutas e sofrimentos constantes. O «eu» é um feixe formado de muitas entidades, todas opostas umas às outras. É um campo de batalha onde se digladiam desejos conflituosos, um centro de constantes lutas entre o «meu» e o «não-meu»; e enquanto dermos importância ao «eu», ao «meu», haverá conflitos sem fim dentro de nós e no mundo.

J. Krishnamurti - A Educação e o Significado da Vida

04 setembro, 2014

Negando o que não é amor
O que é o amor? Não estamos discutindo teorias sobre o que o amor deveria ser. Estamos observando o que chamamos de amor: “Amo a minha mulher.” Não sei o que é que você ama; e duvido que você ame algo. Sabe o que significa amar? Será que o amor é prazer? O amor é ciúme? Um homem ambicioso é capaz de amar? – ele pode dormir com a mulher, gerar alguns filhos. E um homem que esteja lutando para se tornar importante na política, ou no mundo dos negócios, ou no mundo da religião (onde deseja se tornar um santo, deseja ser sem desejo), tudo isso faz parte da ambição, da agressão, do desejo. O homem competitivo é capaz de amar? E vocês todos são competitivos, não é verdade? – melhor emprego, melhor posição, melhor casa, ideias mais nobres, imagens mais perfeitas de si mesmos; vocês conhecem bem as situações por que passam. Isso é amor? Você é capaz de amar ao passar por toda essa tirania, quando pode dominar sua mulher ou seu marido, ou os seus filhos? Quando você está buscando o poder, há possibilidade de amar?
Portanto, na negação do que não é amor, existe amor. Entendem senhores? Precisam negar tudo que não seja amor, o que significa não ter ambição, não ser competitivo, não ser agressivo, não ser violento nem na fala, nem em ato, nem em pensamento. Quando você nega o que não é amor, então sabe o que é amor.
Mind in Meditation, pp 10-11

15 julho, 2014

Você não pode conciliar criatividade com empreendimento técnico. Você pode ser perfeito tocando piano, e não ser criativo; pode tocar piano brilhantemente, e não ser um músico. Pode ser capaz de manipular cores, pintar uma tela muito habilmente, e não ser um pintor criativo. Você pode criar um rosto, uma imagem em pedra, porque aprendeu a técnica, e não ser um mestre criador. A criação vem primeiro, não a técnica, e por isso somos infelizes em nossas vidas. Temos técnicas – como construir uma casa, uma ponte, como montar uma máquina, como educar nossos filhos através de um sistema – nós aprendemos todas estas técnicas, mas nossos corações e mentes estão vazios. Somos máquinas de primeira classe; sabemos como funcionar muito bem, mas não amamos uma coisa viva. Você pode ser um bom engenheiro, pode ser pianista, pode escrever com bom estilo em inglês ou marathi ou que idioma seja, mas a criatividade não se encontra pela técnica. Se você tem algo a dizer, cria seu próprio estilo; mas quando você nada tem a dizer, mesmo que tenha um belo estilo, o que você escreve é apenas a rotina tradicional, uma repetição com novas palavras da mesma coisa velha. Assim, tendo perdido a canção, vamos ao encalço do cantor; e eu digo que a canção é essencial, a alegria de cantar é essencial. Quando a alegria está ali, a técnica pode surgir do nada; você inventará sua própria técnica, não terá que estudar dicção ou estilo. Quando você tem, você vê, e o próprio ver da beleza é uma arte. 

J. Krishnamurti, The Book of Life

10 junho, 2014


Um homem que ama é puro ainda que possa ser sexual

"O homem intelectual, cheio de conhecimentos – o conhecimento é diferente da sabedoria -, o homem que tem esquemas, que quer salvar o mundo, que está cheio de conceitos, de projeções mentais, esse é o homem que está preso no sexo. Por causa da superficialidade de sua vida, do vazio de seu coração, o sexo se torna importante; e isso é o que está acontecendo na presente civilização. Temos cultivado excessivamente o nosso intelecto, e a mente se encontra presa em suas próprias criações, tais como o rádio, o automóvel, os entretenimentos mecânicos, o conhecimento tecnológico e aos diversos hobbies aos quais a mente se entrega. Quando uma mente se acha assim presa, para ela existe somente um alivio: o sexo. Senhores, observem o que ocorre com cada um de vocês, não olhem para outra pessoa. Ela é árida, vazia, opaca, tediosa, não é assim? Recorrem aos seus serviços, desempenham tarefas, repetem seus mantras, praticam seus rituais. Quando se encontram no serviço, estão submetidos, embotados, são obrigados a seguir uma rotina; em sua religião, se tornam mecânicos, aceitam meramente a autoridade.

Assim, religiosamente, no mundo dos negócios, na sua educação, na sua vida cotidiana, o que de fato ocorre? Não existe um estado de ser criativo, não é verdade?Não são felizes, não possuem vitalidade, não são pessoas alegres. Tanto no intelectual como no religioso, econômico, social e político, estão embotados, regimentados, não é assim? Essa regimentação é o resultado de seus próprios temores, de suas próprias esperanças e frustrações; e posto que para uma ser humano tão atrapalhado não há liberação possível, é natural que recorra ao sexo para liberar-se; ali pode dar-se o gosto, ali pode buscar a felicidade. Deste modo, o sexo se torna automático, habitual, rotineiro; e isso também chega a ser um processo embotador e nocivo. De fato, essa é a vida de vocês; verão que é assim se a consideram, se não tratam de se iludir, de buscar por mecanismos de fuga. O fato real é que não são criativos. Podem engendrar criaturas, inumeráveis criaturas, porém, isso não é uma ação criativa, é uma ação acidental da existência. 

Portanto, uma mente que não é alerta, vital, um coração que não é afetuoso, pleno, como pode ser criativo? E, ao não serem criativos, vocês buscam estímulo por meio do sexo, do entretenimento, dos cinemas, teatros, observando como outros interpretam enquanto vocês permanecem como meros expectadores; outros pintam a paisagem ou dançam, e vocês não são mais do que observadores. Isso não é criação. Assim mesmo, no mundo são impressos tantos livros porque vocês tão somente lêem. Não são criadores. Onde não há criação, a única liberação é mediante ao sexo, e então, convertem suas esposas em prostitutas, Senhores, vocês não tem idéias das implicações, da perversidade, da crueldade de tudo isto. Se é que se sentem incomodados. Não pensam sobre isso. Fecham suas mentes; em conseqüência, o sexo se tornou um imenso problema na moderna civilização: ou a promiscuidade ou o hábito mecânico doa Lívio sexual no matrimonio. O sexo continuará sendo um problema, no entanto não há um estado criativo do ser. Vocês podem usar o controle da natalidade, podem adotar diversas práticas, porém, não estão livres do sexo. A sublimação não é liberdade, nem o é a repressão nem o controle. Existe liberdade somente quando há afeto, quando há amor. O amor é puro e, quando falta o amor, tratar de nos tornar puros mediante a sublimação do sexo é mera estupidez. O fator purificante é o amor, não o nosso desejo de ser puros. O homem que ama é puro ainda que possa ser sexual; e sem amor, atualmente o sexo é o que é em suas vidas: uma rotina, um processo desagradável, algo para ser evitado, ignorado, para prescindir dele para comprazer-se nele." 

OBRAS COMPLETAS, Volume V – Bangalore, 8 de agosto de 1948
j. krishnamurti

15 abril, 2014

SOBRE O AMOR


Descobriremos o que é o amor se compreendermos o que o amor não é, porque, sendo o amor o desconhecido, só podemos nos aproximarmos dele depois de rejaitar o conhecido. O desconhecido não pode ser descoberto pela mente que está repleta do conhecido. O que vamos fazer, é procurar compreender os valores do conhecido, considerar o conhecido e, depois de o considerarmos, pura e simplesmente, sem condenação, a mente se tornará livre dele e saberemos, então, o que é o amor. Assim, devemos chegar-nos ao amor de maneira negativa e não, positiva.

O que é o amor para a maioria de nós? Quando dizemos que amamos uma pessoa, o que queremos dizer? Queremos dizer que possuímos a pessoa. Da posse nasce o ciúme, porque se eu o perder, ou a perder, o que acontecerá? me sentirei vazio, perdido. Por conseguinte, legalizo a posse, retenho-o, ou retenho-a em meu poder. Do possuir a pessoa, resulta o ciúme, resulta o temor e os inumeráveis conflitos inerente a posse. Ora, posse não é amor, é?

O amor, por certo, não é um sentimento. Ser sentimental, ser emotivo, não é indício de amor, porque a sentimentalidade e a emoção, não passam de meras sensações. A pessoa religiosa, que chora por Jesus, por Krishna, por seu guru ou por outro qualquer, é apenas sentimental, emotiva. Está se deixando dominar pela sensação, que é um processo do pensamento e o pensamento não é amor. O pensamento é resultado da sensação; assim, a pessoa sentimental, emotiva, não pode, de modo algum, conhecer o amor. Não somos emotivos e sentimentais? A sentimentalidade, a emotividade, são apenas uma forma de auto-expansão.  Estar cheio de emoção não é amor, por certo, porque uma pessoa sentimental pode ser cruel, quando seus sentimentos não são correspondidos, quando não pode dar expansão aos sentimentos. Uma pessoa emotiva pode ser incirada ao ódio, à guerra, ao morticídio. O homem sentimental, lacrimosamente religioso, esse homem por certo não tem amor. 

Perdão é amor? O que subentende o perdão? Você me insulta, eu me ressinto; guardo na memória o insulto. Depois, forçado pelas conveniências ou pelo arrependimento, digo, "lhe perdôo". primeiro guardo, depois rejeito. O que significa isso? Que eu continuo a ser a figura central. Continuo a ser importante; sou eu quem está perdoando. Com essa atitude eu é que sou importante, não o homem que supostamente me insultou. Por conseguinte, quando acumúlo ressentimentos, e depois rejeito esses ressentimentos, e a isso chamo eprdoar, não há amor. O homem que ama não guarda inimizade, todas essas coisas lhe são indifererentes.   Arrependimento, perdão, um estado de relação em que há posse, ciúme, medo — nada disso é amor. São só coisas da mente, não é verdade? Enquanto a mente for o árbitro, não há amor, porque a mente só arbitra segundo seu interêsse de posse, e seu veredicto é sempre em favor da posse, sob diferentes formas. A mente pode apenas corromper o amor; não pode fazer nascer o amor, não pode oferecer beleza. Você pode descrever um poema sobre o amor, mas isso não é amor. 

Por certo, não há amor, quando não há verdadeiro respeito, quando não respeitamos os nossos semelhantes, seja nosso criado, ou nosso amigo. Você já notou que não sabe respeitar, que não sabe ser benevolente, generoso para com seus criados, para com as pessoas ditas subalternas? Vocês têm respeito pelos que estão em cima, pelo patrão, pelo milionário, pelo homem que tem uma suntuosa residência e um título, pelo homem que pode lhes dar uma posição melhor, um emprego melhor, de quem vocês podem ganhar alguma coisa.Mas vocês tratam a pontapés os que estão abaixo de vocês; para esses, você têm uma linguagem especial. Por conseguinte, onde não há respeito, não há amor. Onde não há compaixão, caridade, benevolência, não há amor. E como a maioria de nós se acha nesse estado, não temos amor. Não somos nem respeitosos, nem compassivos, nem generosos. Somos dominados pelo desejo de posse, cheios de sentimentos e emoções, que podem ser dirigidos para qualquer lado, para o assassínio, para a matança, ou para a unificação em torno de algum plano estravagante e ignorante. Em tais condições, como pode haver amor? 

Vocês só conhecerão o amor quando todas essas coisas tiverem cessado, acabado, quando você não possuírem, quando não forem emocionalmente devotos à um objeto. Tal devoção é súplica, é busca de alguma coisa, de maneira diferente. O homem que reza não conhece o amor. Visto que vocês têm inclinação para a posse, visto que buscam um fim, um resultado pela devoção, pela oração, que torna vocês sentimentais, emotivos, não existem, naturalmente, amor; não há amor, é evidente, quando não há respeito. Vocês podem dizer que tem respeito, mas o respeito de vocês é pelo superior, simples respeito inspirado pelo desejo de alguma coisa, ou respeito do medo. Se vocês sentissem respeito, realmente seriam tão respeitosos para com os mais humildes como para os chamados superiores. Como não temos esse respeito, não temos amor. Quão piucos de nós são generosos, indulgentes e caridosos! Vocês são generosos quando quando isso lhes compensa; você são caridosos quando esperam alguma retribuição. Quando essas coisas desaparecerem e deixarem de ocupar as suas mentes, e quando as coisas da mente não mais encherem os seus corações, então haverá amor. E só o amor pode transformar a loucura, a insanidade que vai pelo mundo hoje em dia — e não os sistemas, nem as teorias,  quer da esquerda, quer da direita. Só amam realmente, quando não possuem, quando não são invejosos, ávidos, quando são respeitosos, quando vocês têm compaixão e caridade, quando vocês têm consideração para com sua esposa, seus filhos, seu vizinho, seus pobres criados. 

O amor não pode ser pensado, o amor não pode ser cultivado, o amor não pode ser exercitado. A prática do amor, o exercitar da fraternidade,  está ainda dentro da esfera da mente e, por conseguinte, não é amor. Quando tudo isso tiver cessado, então, nascerá o amor, e você saberão então o que é amar. O amor não é então quantitativo, mas qualitativo. Vocês não dizem "amo o mundo inteiro"; quando sabem amar a um só, sabem amar o todo. Porque não sabemos amar a um só, nosso amor à Humanidade é fictício. Quando você amam, não há nem um, nem muitos: só há amor. 

Só quando houver amor, poderão todos os problemas ser resolvidos, e  conheceremos então a sua bem-aventurança, sua felicidade.

A Primeira e Ultima Liberdade

Krishnamurti 

06 março, 2014


Um homem que ama é puro ainda que possa ser sexual - (Krishnamurti)


"O homem intelectual, cheio de conhecimentos – o conhecimento é diferente da sabedoria -, o homem que tem esquemas, que quer salvar o mundo, que está cheio de conceitos, de projeções mentais, esse é o homem que está preso no sexo. Por causa da superficialidade de sua vida, do vazio de seu coração, o sexo se torna importante; e isso é o que está acontecendo na presente civilização. Temos cultivado excessivamente o nosso intelecto, e a mente se encontra presa em suas próprias criações, tais como o rádio, o automóvel, os entretenimentos mecânicos, o conhecimento tecnológico e aos diversos hobbies aos quais a mente se entrega. Quando uma mente se acha assim presa, para ela existe somente um alivio: o sexo. Senhores, observem o que ocorre com cada um de vocês, não olhem para outra pessoa. Ela é árida, vazia, opaca, tediosa, não é assim? Recorrem aos seus serviços, desempenham tarefas, repetem seus mantras, praticam seus rituais. Quando se encontram no serviço, estão submetidos, embotados, são obrigados a seguir uma rotina; em sua religião, se tornam mecânicos, aceitam meramente a autoridade.

Assim, religiosamente, no mundo dos negócios, na sua educação, na sua vida cotidiana, o que de fato ocorre? Não existe um estado de ser criativo, não é verdade?Não são felizes, não possuem vitalidade, não são pessoas alegres. Tanto no intelectual como no religioso, econômico, social e político, estão embotados, regimentados, não é assim? Essa regimentação é o resultado de seus próprios temores, de suas próprias esperanças e frustrações; e posto que para uma ser humano tão atrapalhado não há liberação possível, é natural que recorra ao sexo para liberar-se; ali pode dar-se o gosto, ali pode buscar a felicidade. Deste modo, o sexo se torna automático, habitual, rotineiro; e isso também chega a ser um processo embotador e nocivo. De fato, essa é a vida de vocês; verão que é assim se a consideram, se não tratam de se iludir, de buscar por mecanismos de fuga. O fato real é que não são criativos. Podem engendrar criaturas, inumeráveis criaturas, porém, isso não é uma ação criativa, é uma ação acidental da existência. 

Portanto, uma mente que não é alerta, vital, um coração que não é afetuoso, pleno, como pode ser criativo? E, ao não serem criativos, vocês buscam estímulo por meio do sexo, do entretenimento, dos cinemas, teatros, observando como outros interpretam enquanto vocês permanecem como meros expectadores; outros pintam a paisagem ou dançam, e vocês não são mais do que observadores. Isso não é criação. Assim mesmo, no mundo são impressos tantos livros porque vocês tão somente lêem. Não são criadores. Onde não há criação, a única liberação é mediante ao sexo, e então, convertem suas esposas em prostitutas, Senhores, vocês não tem idéias das implicações, da perversidade, da crueldade de tudo isto. Se é que se sentem incomodados. Não pensam sobre isso. Fecham suas mentes; em conseqüência, o sexo se tornou um imenso problema na moderna civilização: ou a promiscuidade ou o hábito mecânico doa Lívio sexual no matrimonio. O sexo continuará sendo um problema, no entanto não há um estado criativo do ser. Vocês podem usar o controle da natalidade, podem adotar diversas práticas, porém, não estão livres do sexo. A sublimação não é liberdade, nem o é a repressão nem o controle. Existe liberdade somente quando há afeto, quando há amor. O amor é puro e, quando falta o amor, tratar de nos tornar puros mediante a sublimação do sexo é mera estupidez. O fator purificante é o amor, não o nosso desejo de ser puros. O homem que ama é puro ainda que possa ser sexual; e sem amor, atualmente o sexo é o que é em suas vidas: uma rotina, um processo desagradável, algo para ser evitado, ignorado, para prescindir dele para comprazer-se nele." 

OBRAS COMPLETAS, Volume V – Bangalore, 8 de agosto de 1948

03 março, 2014

"O pensamento é o resultado do passado a atuar no presente; as vagas do passado estão de contínuo submergindo o presente. O presente, o novo, está sempre sendo absorvido pelo passado, o conhecido. Para se viver no presente eterno, é necessário morrer para o passado, para a memória; nesta morte há renovação, sem a limitação do tempo.

Estende-se o presente para o passado e para o futuro; sem compreender-se o presente, fica- nos fechada a porta para a compreensão do passado. É tão fugaz a percepção do que é novo; nem bem o sentimos e já o submerge a rápida corrente do passado, e o novo deixa de existir.

Morrer para todos os dias passados, viver cada dia renovadamente — tal só é possível se formos capazes de estar passivamente vigilantes. Nessa vigilância passiva nada se nos acrescenta; nela há uma tranqüilidade intensa, na qual se assiste ao desenrolar perene do novo, na qual o silêncio se estende infinitamente.

Procuramos servir-nos do novo como meio de destruir ou consolidar o velho, e com isso corrompemos o presente, em que palpita a vida. O presente renova, e dá-nos a compreensão do passado. É sempre o novo que dá compreensão, e na sua luz assume o passado um significado novo e vivificante. Quando ouvimos uma coisa nova, ou a sentimos em nós, nossa reação instintiva é compará-la com o velho, com algo já conhecido e sentido, com uma lembrança já quase a apagar-se. Essa comparação dá força ao passado, desfigura o presente, e por essa razão se transforma o novo sempre em coisa passada e morta. Se fosse o pensamento-sentimento capaz de viver no presente, sem o desfigurar, veríamos, então, o passado transformar-se no presente eterno.

Para alguns de vós terão, porventura, estas palestras e exposições despertado uma compreensão nova e estimulante; o que agora importa é que se não ajuste o novo a velhos padrões de pensamento ou velhas fraseologias. Deixai o novo como está, livre de contaminação. Se for ele verdadeiro, a sua luz abundante e criadora dissipará o passado. O desejo de dar permanência ao presente criador, de torná-lo prático ou útil, despoja-o de seu valor. Deixai que o novo viva, sem estar ancorado no passado, sem a influência deformadora de temores e esperanças.

Morrei para vossa experiência, para vossas lembranças. Morrei para vossos preconceitos agradáveis ou desagradáveis. Morrer assim é tornar-se incorruptível; tal estado não é de aniquilamento porém de criação. É essa renovação que, se o permitirmos dissolverá os nossos problemas, por mais complicados, e os nossos sofrimentos, por mais intensos que sejam. Só na morte do “ego” haverá a vida."



Krishnamurti - Conferências com perguntas e respostas realizadas nos anos de 1945 e 1946, em Ojai, Califórnia, Estados Unidos da América. Do livro: O Egoísmo e o Problema da Paz – Ed. ICK - 1946

28 janeiro, 2014

No silêncio da noite ...

No silêncio da noite e na serena tranquilidade da manhã, quando o Sol começa a iluminar os montes, apercebemo-nos de um grande mistério. Este mistério está em todas as coisas vivas. Se nos sentamos debaixo de uma árvore, sentimos este velho planeta com todo o seu incompreensível mistério. Na quietude da noite, quando as estrelas cintilam e parecem estar muito próximas, temos consciência do espaço a expandir-se e da ordem misteriosa de todas coisas, do imensurável e também do nada, do movimento dos montes na escuridão e do grito da coruja.
Nesse completo silêncio da mente, o mistério vai aumentando, sem tempo nem espaço... A experiência é a morte desse indizível mistério...para estar em comunhão com esse mistério, a nossa mente, o todo que nós somos deverá estar no mesmo nível, sincronizado, com a mesma intensidade que isso a que chamamos misterioso. E isso é amor. Com este amor todo o mistério do universo se abre.


Jiddu Krishnamurti

14 janeiro, 2014

Pedagogia

A educação de uma criança requer inteligente observação e zelo. Os especialistas com toda a sua ciência, não podem substituir o amor dos pais, mas a grande maioria destes corrompe esse amor com os seus próprios medos e ambições, que condicionam e deformam a visão da criança. Assim, bem poucos de nós se importam com o amor, contentando-se com a aparência de amor. 




Uma mãe pode sentir-se responsável pelo filho, sentir que ele faz parte do seu sangue e da sua carne, e consagrar portanto todo o cuidado e atenção a essa criança durante alguns anos. Este instinto maternal será responsabilidade? Talvez esta ligação especial aos filhos tenha sido herdada do primeiro animal. Existe na natureza, desde o mais frágil passarinho ao elefante majestoso. Perguntamos então - será este instinto responsabilidade? Se o fosse, os pais sentir-se-iam responsáveis por uma educação correcta e por um tipo de sociedade totalmente diferente. Fariam o possível para que não houvesse guerras, e para que neles próprios florescesse a bondade. 
Somos responsáveis por toda a humanidade - que é cada um de vós e cada aluno. Tendes de começar por aí e abranger a terra inteira. Podeis ir muito longe, se partis de muito perto. (...)A natureza não é imaginária: é real, como é real o que vos está a acontecer. É pelo real que tendes de começar - pelo que está a acontecer agora - e o agora é sem tempo.

J. Krishnamurti, in Cartas às Escolas



Jiddu Krishnamurti foi um filósofo, escritor e conferencista internacional. Nasceu em 1985 na Índia.

Jiddu Krishnamurti era livre de que qualquer influência condicionante dos diferentes sistemas de filosofia, religiosidade dogmática, ideologia politica, especulação intelectual e diferenças culturais. Quando o homem fica consciente dos seus próprios pensamentos ele vê a divisão entre o pensador e o pensamento.

O objectivo de Krishnamurti era libertar a humanidade. Ele afirmava que o individuo se torna livre por ficar consciente do seu próprio condicionamento psicológico, e que o seu despertar irá possibilitar o amor ao próximo.

http://www.jkrishnamurti.org