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06 julho, 2017

não sei se respondo ou se pergunto

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
antónio ramos rosa

02 junho, 2017

A Palavra

Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível 
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios. 
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo. 
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

02 março, 2017

É por ti que escrevo

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajetória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso
 


António Ramos Rosa, in “O Teu Rosto”

29 janeiro, 2017

ESTAR SÓ É ESTAR NO ÍNTIMO DO MUNDO

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo


António Ramos Rosa
em "Poemas Inéditos" 

23 janeiro, 2017

para além dos signos

Escrever agora é dispersar os reflexos,
abrir as portas de pedra e repousar no ar.
Ajoelhado junto de um barco ou de uma jarra,
um deus respira e é um puro vazio.
Para além dos signos e no início deles
um sorriso, um fulgor das coisas confiantes.
E nos muros e nos dedos, uma areia
que das nuvens descesse e na distância
a forma de um abraço amante, o sonho do outro.

antónio ramos rosa

12 novembro, 2016

A relação do ser e do horizonte é circular. É talvez o aberto que cria o horizonte, é talvez a respiração que abre o mundo. Mas o alento não poderia romper sem a linha pura do horizonte e na lâmpada da respiração não se acenderia se o mundo não fosse já o extenso mundo do aberto. Por isso a escuta é a espera vazia aberta ao tempo e à possibilidade de uma palavra livre mas fiel à simplicidade nova de um começo.

António Ramos Rosa in Relâmpago de Nada

17 agosto, 2016

a paixão do ar


Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre

Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama

Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil

O fogo flexível.


antónio ramos rosa

14 setembro, 2014


E CERTAS PALAVRAS

E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas

este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara

 antónio ramos rosa

06 setembro, 2014

A partir de uma folha reconstruí a árvore 
e tudo me foi dado porque ofereci 
ao abandonado deus da inércia mineral 
e de privilégio em privilégio reconheci o nada 
do meu tronco original e a sua redonda substância 
Baixei as pálpebras como quem entra num túmulo 
e penetrei na nuvem obscura de uma secreta pupila 
onde quem morre nasce e os deuses assomam 
os colos degolados Entrei na selva de uma 
gruta
e vi as chamas e as sombras na dança dos desejos
Colhi então uma pequena folha azul no chão vermelho
e coloquei-a no ombro de uma mulher maravilhosa
E de carícia em carícia formou-se uma folhagem
e o tronco tenso da árvore no próprio corpo dela
e no meu corpo unânime solidamente vivo


António Ramos Rosa

20 agosto, 2014

teu corpo principia
  
Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.


antónio ramos rosa
estou vivo e escrevo sol
1966 

21 julho, 2014

Um Ofício que Fosse de Intensidade e CalmaUm ofício que fosse de intensidade e calma 
e de um fulgor feliz E que durasse 
com a densidade ardente e contemporâneo 
de quem está no elemento aceso e é a estatura 
da água num corpo de alegria E que fosse   fundo 
o fervor de ser a metamorfose da matéria 
que já não se separa da incessante busca 
que se identifica com a concavidade originária 
que nos faz andar e estar de pé 
expostos sempre à única face do mundo 
Que a palavra fosse sempre   a travessia 
de um espaço em que ela própria fosse aérea 
do outro lado de nós e do outro lado de cá 
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser 
e já sem distância e não-distância nada a separasse 
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios 


António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

Talvez o trabalho sejamos nós e parte de nós, 

e o maior trabalho sabermos o que somos e para o que viemos. Talvez o trabalho seja sorrir e abrir-mo-nos a cada dia, aceitar-mos o que ele nos dá com gratidão, num tempo dedicado ao que nos envolve e concretiza. Um trabalho, sem trabalho, nem obrigação, na plenitude do que nos envolve e no momento em que vivemos. Que o nosso maior trabalho seja dedicado ao coração e á leviandade dos sentidos. Que imanentemente possamos viver nesse ofício, o de amar!a.tereso

27 abril, 2014


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca, através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in Antologia Poética

25 janeiro, 2014

Não Posso Adiar o Amor

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas 

Não posso adiar este abraço 
que é uma arma de dois gumes 
amor e ódio 

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o rneu amor 
nem o meu grito de libertação 

Não posso adiar o coração 


António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"


Não é um poeta de quem saiba muito, e só à pouco tempo veio ter comigo. Gosto do que vou lendo e aos poucos vamos partilhando interesses e sensações. É bonito e vou sentindo-o aos poucos...http://antonioramosrosa.blogspot.pt/p/biografia.html