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17 junho, 2017

partilha formal

Certas épocas da condição do homem sujeitam-se ao ataque de um mal que se apoia nos pontos mais desonrosos da natureza humana. No centro desse furacão, o poeta completará
Pela auto-renúncia o sentido da sua mensagem, posto o que se aliará ao partido daqueles que, tendo retirado ao sofrimento a sua máscara de legitimidade, garantem o eterno retorno do teimoso estafeta, traficante de justiça.
rené char

03 janeiro, 2017

LEÓNIDAS

És tu a minha mulher? A minha mulher feita para aguardar o encontro do presente? A hipnose da fénix cobiça a tua juventude. A pedra das horas investe-a da sua hera.

És tu a minha mulher? O ano do vento onde guerreia uma nuvem antiga faz nascer a rosa, a rosa da violência.
A minha mulher feita para aguardar o encontro do presente.

O combate afasta-se e deixa-nos um coração de abelha sobre as nossas terras, a sombra desperta, o pão ingénuo. O serão esgueira-se lentamente para a imunidade da Festa.

A minha mulher feita para aguardar o encontro do presente.

rené char

Tradução de Margarida Vale de Gato.
Textos extraídos do livro Furor e mistério, de René Char (Relógio D'Água)

09 abril, 2016

MODO DE SE DOBRAR

Como era puro, meu irmão, o procurador da tua falência — ouço os teus soluços, as tuas pragas —. Ó vida transcrita do grande sal maternal! O homem com dentes de furão embebia o seu zénite na terra das adegas, o homem com tez de espião intumescia a beleza bem-amada em toda a parte. Velho sangue abobadado que me governas, espreitamos até ao horror o degelo lunar da náusea. Estonteamo-nos com uma paciência selvagem; uma lâmpada que nos era desconhecida, que nos era inacessível, no cabo do mundo, mantinha despertos a coragem e o silêncio.
Rumo à tua fronteira, ó vida humilhada, marcho agora ao compasso das certezas, prevenido de que a verdade não precede obrigatoriamente a ação. Irmã louca da minha frase, amante selada, salvo-te de um hotel em escombros.
O sabre bubónico cai das mãos do Monstro no final do êxodo do tempo de se exprimir.

René Char

03 março, 2016

DIZ...

Diz aquilo que o fogo hesita a dizer,
Sol do ar, claridade que ousa,
E morre porque o disseste por todos.

rené char