18 janeiro, 2014

a escrita é a minha primeira morada de silêncio


a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada


esta paixão pelos objectos que guardastes
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos


espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu persegui teu rasto de esperma à beira-mar


outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

  
al berto



Poeta e editor. O seu verdadeiro nome é Alberto Raposo Pidwell Tavares.

Espelhando vivências de uma juventude errante, em deambulações por uma certa Europa marginal e underground - que o poeta cumpriu vivendo, entre o final da década de sessenta e a década de 70, numa comunidade urbana de Bruxelas e nos bas-fonds de Paris e Barcelona -, oscilando entre o excesso da experiência emocional e física e uma melancolia desolada e solitária, a obra de Al Berto reflecte a presença imaginária de Genet e Rimbaud na paixão urgente e dolorosa, na transgressão sexual, na vertigem auto destrutiva, na solidão, na experiência do deserto e da morte.

Ao situar o seu discurso poético a meio caminho entre a extrema lucidez e a ternura, a exposição narcísica e a assunção da literatura como ficção inseparável da vivência, Al Berto tem sido considerado, na tonalidade crepuscular que envolve toda a sua obra, uma voz "entre a subjectividade romântica e a impessoalidade modernista" (Hélder Moura Pereira), num território já pertencente ao domínio da pós-modernidade.

Sem comentários:

Enviar um comentário