29 janeiro, 2014

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosame
nte) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


e. e. cummings
( tradução: Augusto de Campos )






edward estlin cummings  

Nasceu em 14/10/1894, em Massachussets, EUA. Poeta, pintor, ensaísta e dramaturgo, escrevia de um modo não convencional para os padrões da época. Seus poemas não incluem o uso das letras maiúsculas e não usa maiúsculas nem mesmo no seu nome. Talvez um dos poetas que mais me desperta curiosidade neste momento. Talvez pela sua liberdade e intensidade. Gosto da dimensão onde ele vive.

Sem comentários:

Enviar um comentário