27 janeiro, 2014

Primeiramente.


Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e 
claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as 
duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.

E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, 
pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.

Meu amor, amor duma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da 
minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca - e sempre a tua boca - 
comece de novo a nascer na minha boca.

Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, 
encostar a face ao rosto lunar dos bêbedos e perguntar o que aconteceu.

EUGÉNIO DE ANDRADE in 'Poesia e Prosa [1940-1980]'

Sem comentários:

Enviar um comentário