Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e
claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as
duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome,
pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor duma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da
minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca - e sempre a tua boca -
comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros,
encostar a face ao rosto lunar dos bêbedos e perguntar o que aconteceu.
EUGÉNIO DE ANDRADE in 'Poesia e Prosa [1940-1980]'
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