14 fevereiro, 2014

Cartas a Sandra

" Sandra.(...) Vou ver se ouço, não sei se serei capaz. Penso em ti mas tu não vens, como ouvir sem ti ao pé? É uma música de um prazer que não devia haver na sua dolência melancolia. Vem nela uma amargura terna do que passou, de um lugar incerto, talvez de uma tarde no jardim à beira-rio onde estivéssemos os dois em silêncio. Porque é curioso, raro me lembro do que tivéssemos dito alguma vez. E lembro-me é de te olhar e tu sorrires e não me dizeres nada. E sempre , quase sempre no tempo em que te conheci. Mesmo a tua morte que foi difícil, é muito raro lembrá-la. Também é raro pensar-te quando já envelhecias e eu atravessava a tua imagem até ao tempo do teu esplendor. Porque tu não nasceste para a velhice e a morte. Não franzas o teu rosto, deixa-me dizer. Até ao tempo da tua plenitude, que foi quando os deuses, como te disse, deram o seu trabalho por concluído e te entregaram à vida. A balada enche todo o espaço desta sala, ressoa ainda lá fora na noite. É uma balada de uma longa amargura sem razão, a mais difícil de suportar. E então fecho o aparelho. Mas logo sinto sobre mim a espessura de um silêncio que me aturde. E abro-o outra vez. Era bom que tu fosses mais compreensiva e te sentasses aqui um pouco ao meu lado. E eu prometeria não dizer nada, era só estares. Mas o espectáculo vai terminar. Ouço a balada de despedida nas guitarras como um dobre de sinos. Despedida de tudo, de nada, é bom ouvir e ceder um pouco ainda a uma certa dispersão de mim com esta música de um tempo antiquíssimo. E fecho definitivamente o aparelho, venho um pouco até à varanda. A aldeia adormece com a vigília das lâmpadas errantes pelas ruas, a montanha imobiliza-se no seu peso. Tento divisar os caminhos que a percorrem, imaginá-los para a excursão que um dia faríamos até ao alto. Vejo o choupo ao lado do portão, agita-se um pouco à aragem da noite. E de súbito, num curto-circuito da memória, lembro-me de quando aqui vieste comigo pela primeira vez. Era o fim do Verão, nós tínhamos ido à praia depois do casamento e eu prometera à Tia Joana estarmos com ela alguns dias. Vai-nos perguntar se casámos pela Igreja e tu vais mentir-lhe, disseste. Não digas nada, disse eu, deixa o caso comigo. Rolámos no comboio, um em face do outro, tu olhavas os campos verdes com o ar sério e um pouco distante que sempre te conheci. E eu olhava-te em silêncio, perturbado ainda de que te amava mas pouco depois recuperavas o teu mistério e impossível. E é onde agora te vejo, sempre, quando te penso. Podia pensar-te lembrar-te nos momentos de alguma desavença para que a tua fascinação recuasse para fora de ti. Ou quando simplesmente eu via em ti apenas , como dizer-te? a materialidade que te pertencia. Nunca lembro, estou cego para te ver assim. E o que flutua à minha volta é a tua irrealidade para te amar como nunca te amei."

Vergílio Ferreira, in " Cartas a Sandra", Ed. Círculo de Leitores, Maio de 1997




Este homem reuniu em si diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos. Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística.
Vergílio foi também um existencialista por natureza. A sua produção literária reflecte uma séria preocupação com a vida e a cultura. Este escritor confessou a Invocação ao meu Corpo (1969) trazer em si “ a força monstruosa de interrogar”, mais forte que a força de uma pergunta. ”Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação”. Este pensador tecia reflexões constantes acerca do sentido da vida, sobre o mistério da existência, acerca do nascimento e da morte, enfim, acerca dos problemas da condição humana.


in http://bmgouveiavf.blogspot.pt/2006/10/biografia.html

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