26 julho, 2014


A Singer e o Sorriso da Maria Felicidade!
Em pequeno fazia trinta por uma linha á minha mãe, e mesmo agora ando sempre com a bainha descosida. Sempre fui irrequieto, mas muito atento ao que se passa em meu redor. Desde cedo mantive uma relação muito próxima com a minha avó Conceição, mais conhecida por Sra. Maria Felicidade. Neste cose e descose da vida, em zig zag, por pontos ou somente alinhavada, surgem várias heranças. Uma que acabo de restaurar é a Singer da minha avó. Pouco sei da história dela, mas sei que terá mais de 100 anos pelo seu n.º de série, pelas dedadas e desgaste que a envolvia. Serviu ela para que a minha avó cosesse a sua vida. Apesar de andar mal alinhavado e cosido, com a vida aos retalhos esta Singer veio dar-me a agulha que procurava no palheiro.
Queres ficar com alguma coisa da avó? Não, respondi perentoriamente. Após alguma insistência disse que a ficar era com a manta de retalhos e a máquina de costura. Chegou a mim por um simples pedido. Como chegam a mim por vezes recordações e sorrisos em pequenos gestos diários. As pequenas coisas. Ora vejamos. Quando tenho pão duro lembro-me das sopas de pão com café de cevada que me fazia, com umas valentes colheradas de açúcar amarelo. Ou as misturadas (sopa de feijão) que comia á sexta feira. Era dia sagrado, não havia sexta feira que não se comesse! Era tudo da horta, cuidado pelo meu avó Toino. Via-as crescer. Ainda hoje a minha parte favorita do pão é a mama e quando a como o meu pensamento foge para as brindeiras que ela me dava quando fazia pão. Não a largava enquanto não comesse uma. Já era persistente em pequeno!
Posso ter ficado com a Singer, a minha avó pode nem sempre se lembrar de mim quando a visito no lar, e sei que um destes dias poderá partir, mas o seu sorriso e tudo o que está nele é a maior herança com que eu fiquei. Guardo-as numa gaveta que ela trazia e no meu coração. Este sorrisos que vos deixo é parte de mim e da minha avó Felicidade. A Singer é o que menos importa, anda de mão em mão a coser histórias e vidas...
a.tereso

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