30 agosto, 2014

a função do amor é fabricar desconhecimento

a função do amor é fabricar desconhecimento 

(o conhecido não tem desejo;mas todo o amor é desejar) 
embora se viva às avessas,o idêntico sufoque o uno 
a verdade se confunda com o facto,os peixes se gabem de pescar 

e os homens sejam apanhados pelos vermes(o amor pode não se 
                  importar 
se o tempo troteia,a luz declina,os limites vergam 
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela 
—o medo tem morte menor;e viverá menos quando a morte acabar) 

que afortunados são os amantes(cujos seres se submetem 
ao que esteja para ser descoberto) 
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder 
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver 

(que riem e choram)que sonham,criam e matam 
enquanto o todo se move;e cada parte permanece quieta: 

pode não ser sempre assim;e eu digo 
que se os teus lábios,que amei,tocarem 
os de outro,e os teus ternos fortes dedos aprisionarem 
o seu coração,como o meu não há muito tempo; 
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar 
naquele silêncio que conheço,ou naquelas 
grandiosas contorcidas palavras que,dizendo demasiado, 
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente; 

se assim for,eu digo se assim for— 
tu do meu coração,manda-me um recado; 
para que possa ir até ele,e tomar as suas mãos, 
dizendo,Aceita toda a felicidade de mim. 
E então voltarei o rosto,e ouvirei um pássaro 
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas. 

e.e. cummings
livrodepoemas
trad. cecília rego pinheiro
assírio & alvim
1999

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