02 fevereiro, 2015

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


(Hilda Hilst, Do desejo, 1998)





Hilda Hilst (1930-2004) nasceu em Jaú, São Paulo, em 1930. Estudou direito no Largo São Francisco, na Universidade de São Paulo e publicou o primeiro livro em 1950. Ainda que seus primeiros trabalhos tenham chamado a atenção de um crítico como Sérgio Buarque de Holanda, ela passaria a reunir sua obra poética a partir do volume Roteiro do silêncio, de 1959. Entre seus trabalhos poéticos mais conhecidos, podemos mencionar os volumes Trovas de muito amor para um amado senhor (1961), Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), Da Morte. Odes mínimas (1980) e Cantares do Sem Nome e de Partidas(1995).

Foi ao fim da década de 60 e início da década de 70, no entanto, que Hilda Hilst transformou-se na escritora plural e versátil que faria dela uma das figuras mais produtivas da literatura brasileira das últimas décadas. Em dois anos, entre 1967 e 69, ela produz seus textos para o teatro. Em 1970, publica o primeiro trabalho em prosa, intituladoFluxo-Floema, que seria seguido por aquele que é um dos livros mais assombrosos do pós-guerra: Qadós (1973), além de A obscena senhora D (1982) e Com meus olhos de cão e outras novelas (1986).

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