Já não éramos mais nós mesmos. Já não éramos mais que a lembrança de nós mesmos. Verticais de solidão. É isso que éramos.
Já não estávamos mais que perdidos no meio do nada – veja nossos corpos tão distantes e tão próximos.
Já não éramos – olhe para nós – mais que uma rachadura de ramo a ramo, a degenerescência de uma família que, em um século-fera, se perde, se distancia e não existe mais – veja o ar deixar de viver entre nós, veja até mesmo o ar deixar de viver.
Sozinhos, à frente e atrás, sozinhos, à direita e à esquerda, por todos os lados e cada vez mais sozinhos, já não estávamos mais que perdidos entre o hoje e o amanhã, e era preciso render-se à evidência: provavelmente não havia mais ninguém pensando em nós, e nossas palavras eram quimeras.
Já não éramos mais que centenas, em pé e eretos numa espera sem fim, o crepúsculo ou a aurora – difícil dizer – rodeados pelo eterno som de disparo do tempo que passa, e o medo e a angústia: desaparecer sem mesmo ter aparecido.
Na verdade, já não éramos mais que numerosos demais para podermos nos tocar e, à noite e de madrugada, nos falar inclinando nossos corpos para o lado, uns contra os outros. Suavemente, violentamente, amorosamente.
O escuro e a desconfiança cega, a desconfiança e o medo da fera, o medo e a umidade subindo do solo com os esporos escuros não germinados dos nossos desejos. Era aí onde vivíamos, e tínhamos tanto medo.
Vocês já não eram mais que tão melancólicos e tão pessimistas e limitados, riam de vez em quando alguns de nós. Mas nós não os escutávamos mais, claro.
Onde estava o vento? Onde a luz? Já não éramos mais nem o vento nem a luz. Não estávamos mais nem dentro do vento nem dentro da luz.
Provavelmente houve – nesse lugar nulo – seres que tinham se emocionado, tinham rido ou chorado. Mas isso era um vocabulário antigo, a emoção, o riso e as lágrimas, que não entendíamos mais.
Já não estávamos mais que dentro do silêncio dos bosques a nos gritar, sem parar ou quase, que nos amamos, nos abraçamos, nos amamos e nos abraçamos, mas isso era uma manobra triste: não se passava mais grande coisa entre nós – veja o ar deixar de viver entre nós, veja até mesmo o ar deixar de viver, repetíamos sem fim.
Não iriam sobrar, no final, senão os vírus e as doenças para nos darem a ilusão de estarmos juntos? Não iria haver mais senão isso, como pontes ou passarelas entre nós? Era isso que pensávamos então, verticais de solidão. E espreitando como mortos de fome a chegada dos primeiros sintomas...
ANTOINE WAUTERS
(Tradução de Paula Glenadel e Lucia Chamarelli, publicada originalmente no quarto número impresso da Modo de Usar & Co., Rio de Janeiro: Berinjela/Artes Vertentes, 2013).
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