12 dezembro, 2016

O AMOR SEGUNDO STENDHAL

Os amores, há-os de vários tipos. Stendhal, para alguns o inventor do amor, enumera quatro tipologias diferentes: o amor-paixão, o amor-gosto, o amor físico e o amor-vaidade.
O amor-paixão, segundo ele, “o da religiosa portuguesa, o de Heloísa por Abelardo” é o mais arrebatador, é aquele que “nos leva para além de todos os nossos interesses”. Já o amor-gosto, é um amor conforme nossas disposições, cor-de-rosa, afeito às nossas necessidades, que não admite qualquer mácula. Conveniente, de certo modo.
O amor físico (ah, o amor físico!), é o amor baseado nos prazeres carnais. Próprio, sobretudo, da adolescência. Stendhal escreve em “Do amor” que “é por aí que se começa aos dezesseis anos”.
Depois, o amor-vaidade, maioria na sua época (séc. XIX), em que o homem “deseja e tem uma mulher à moda, como se tem um lindo cavalo, como coisa indispensável ao luxo de um jovem”, pois que, prossegue, “a vaidade mais ou menos lisonjeada, mais ou menos espicaçada, dá lugar a vivos sentimentos”.
Stendhal, permissivo, ainda admite a existência de oito ou dez variantes. E como se não bastasse, sua coragem (ou audácia) vai ainda mais longe. O amor tem uma espécie de etapas ou de encadeamento. A saber, sete.
Primeira: a admiração (que pode ocupar o período de um ano). Segunda: o prazer do beijo, do beijar e ser beijado (espaço de um mês até a terceira). Terceira: a esperança. Por menor que seja, essa esperança será o suficiente para o nascimento do amor. Nessa fase, “estudam-se as perfeições”. E é aí que a mulher deve entregar-se, “para um maior prazer físico”. O espaço de tempo entre a terceira e quarta fase é um piscar de olhos.
Na quarta fase nasce o amor. Segundo ele, “o prazer em ver, palpar, sentir com todos os sentidos e tão de perto quanto possível, um ser adorável e que nos ama”. A quinta fase, que não se separa temporalmente da quarta, é a primeira cristalização. Ou seja, a atribuição de mil perfeições, de todas as qualidades àquele que amamos. Cristalização é, nas palavras de Stendhal, “a operação do espírito pela qual se descobre, face a tudo o que se lhe apresenta, as novas perfeições do ser amado”. O ser amado é, então, senhor de todas as perfeições que imaginamos.

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