KRISHNA
ECO FARM
O
primeiro grande desafio
Após
estar uns dias em Glasgow, passei 19 dias em Lesmagow na Krishna Eco
Farm. Nunca se sabe o que se vai encontrar e por mais que não se
queira fazer grandes expetativas, a mente deambula sempre para
encontrar pontos incidentes. A curiosidade antes de mais, era saber
como vivia uma comunidade espiritual, como se organizava e conciliava
o seu dia a dia com o mundo terreno.
Talvez
seja esse o meu problema. Criar expectativas, construir conceitos e
ideias antes de iniciar. Talvez esse princípio de presente esteja
distante e seja difícil de concretizar ainda. É por isso que decidi
escrever após a minha estadia, para que fosse respeitante com as
premissas e esse presente (ausente).
Claro
que a experiência foi muito enriquecedora e permitiu-me ouvir-me uma
vez mais. Andamos todos a tentar encontrar estratégias de vida que
nos aproximem mais de nós e do divino. Seja qual for o caminho
escolhido.
Antes
de ir, pouco conhecia do movimento Krishna e o que me vinha à cabeça
era de ver pessoas a cantar e dançar na rua. Agora que sai, ainda
pouco sei sobre a filosofia para questionar ou glorificar, mas ficou
a curiosidade de aprofundar este sistema de vida. Claro está que
apreendi o modus vivendi desta comunidade, mas prefiro
ser eu a interpretá-lo por mim, através das escrituras.
Escolho
os locais pelo tipo de projeto, mas algo tem pesado bastante, se tem
uma alimentação vegetariana. Este era o único local na Escócia na
rede com este modelo de alimentação. E de facto, tem sido a
alimentação a maior dificuldade, muitas vezes por não existir
estrutura nutricional e balanço nas refeições. Se até aqui pude
ter interferência, neste projeto limitava-me a sentar e comer.
Comida como se tivesse na índia, com os mesmos temperos e
simplicidade e quase sempre a mesma! Arroz e curry de lentilhas!
A
minha maior dificuldade foi não perceber onde a vida espiritual se
interligava com a vida terrena, no dia a dia. Foi perceber que o
princípio comunitário muitas vezes não vai para além do Templo.
Foi perceber que o conceito ECO, de sustentabilidade não está
enraizado e pouco prevalece nas refeições. Foi entender que muitas
vezes ter meios, não dá a força e produz à ação. Claro está,
tendo em conta que estas minhas observações serão redutoras e
exageradas. Que possivelmente o inverno condiciona este interligar e
que o pouco que se faz é um passo grande no objetivo geral.
Os
primeiros dias foram difíceis por perceber que as tarefas estavam
delineadas com uma estrutura desorganizada, sem grande preocupação,
objetivos e visão global. Esperei para ver, para conhecer os
intervenientes, para ter a leitura geral do sítio, das pessoas e da
filosofia vigente. Fui dando-me a cada dia, do meio jeito, com
atitude e prática.
Conto-vos
algo que mudou a minha vida à uns tempos (muito antes de vir).
Pensei: se despendo energia e tempo numa ação, quero que esse
intuito, esse momento seja bem empregue, por inteiro e integro. A
importância do detalhe, das pequenas coisas. É com esse espirito
que parto para o que quer que seja. Limpar a casa, cozinhar, cuidar
da horta, estar com pessoas....
Conto-vos
que a primeira vez que limpei a carrinha (o meu pai que não saiba,
uma vez que pouco cuidado tinha com a limpeza do meu carro) e a casa
(ashram masculino), grande parte das pessoas vieram-me dar os
parabéns.
Nos
primeiros dias na horta fiz análise do solo, das condições que
tinham, tentei perceber se o estado climatérico era similar ao do
Irlanda do Norte, objetivos, etc.. Após isso indiquei
possibilidades, dei estratégias, possibilitei troca de ideias e
pesquisa. Passei a ser venerado por sugerir, por fazer pensar, por
fazer e agir... Muitas vezes esse é o meu principal objetivo, que as
pessoas pensem por elas e dêem intuito ao que fazem. Possam
pesquisar e saber mais, de modo a que a acção, o tempo seja bem
empregue e em benefício global (natureza).
Muito
havia por contar da minha intensidade dos dias. Os detalhes ficam
para mim e para quem os viveu. Dou esta experiência como bem
empregue, enriquecedora e única. O que me ri e me vou rir à conta
desta experiência. Quantas vezes cantei “HARE KRISHNA, HARE
KRISHNA, KRISHNA KRISHNA, HARE HARE, HARE RAMA, HARE RAMA, RAMA RAMA,
HARE HARE”.
Que
se continue no encontro do espiritual, de braços dados com a Mãe
TERRA. No ultimo dia, o Charanga chegou junto a mim com um desenho/
plano da horta, com um pequeno esquema de consociações, cheio de design... e é isso
que me faz continuar a acreditar.
a.tereso


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