09 abril, 2017

A permanência da Maria Felicidade

Não são necessariamente preciso palavras, para que na vida se possa expressar o Amor e o sentido das coisas. Há inevitavelmente pessoas que permanecem não pelo sangue, mas pelo que significam em nós. Sejam elas que cognome tenham.
A minha avó Conceição não me ensinou a ler ou a escrever, coisas consideradas importantes, mas ensinou-me a simplicidade das coisas, o estar e ser. Foi com ela que descobri o que era o café da Avó, ou as sopas de pão! Se sei o que é pão, pão a sério em forno de lenha, foi porque ela o fazia. E quando o fazia, havia sempre uma brendeira para o neto. Nem sempre com açúcar amarelo com ela as comia.
Ela era doce por natureza, com tempo para a conversa e para nada fazer se fosse possível. Também adorava vestir-se bem e passear. Era um desfrute do momento, da sua presença e dos seus afazeres. Foi com ela que aprendi o que é retalhos, cozer retalhos e herdei dela esse gosto. Também herdei a sua velha Singer e um tapete de retalhos!
Mas existe algo em mim mais que isso. Não são memórias é algo mais entranhado, é uma identidade que se desvanece nos nosso dias. É a cultura de uma vida difícil mas feliz e em gratidão. É um estar ali, para ali estar. É o pegar num terço e ali ficar a rezar (meditar) para ela e para os demais. O cuidado, seja de que forma for! O passar o tempo. Muitas vezes rezava e dizia: “estou a rezar para ti”. Foi por ela que tantas vezes fui à missa contrariado.
O gosto de ter um jardim bonito, com flores, onde os brincos-de-princesa se presenteavam floridos. O ficar com as mãos pretas de descascar nozes, no tempo quando ainda existiam nogueiras a serio. O fazer todas as sextas-feiras uma grande panela de misturadas (sopa de feijão), familiar e comunitária, jeito que a minha Mãe herdou e o neto tenta acompanhar para que os sabores permaneçam naquele gesto. Coisas com a importância que lhes damos, pequenos nadas com quem pouco vive.
Nos seus últimos tempos já raramente me conhecia. Mas eu reconhecia nela toda a imensidão e genética das antigas Vénus da pré história, Mães da terra e de todos os seres.
E se hoje me correm algumas lágrimas, é de felicidade e gratidão por ter cohabitado e conhecido tão grande ser. Porque quem amamos permanece sempre em nós seja de que forma for...
a.tereso

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