20 maio, 2017

Intensidade na leveza das manhãs,
Lismore uma realidade presente em Thomas Morus

Aqui em Lismore senti-me em casa, mas também foi aqui que vivi dos dias mais intensos e reflectivos. A percepção da condição que me alberga no momento.
Talvez aqui me tenha apercebido que importa não levar ao limite o esforço e que se deve por vezes, parar. É raro cansar-me, ou não recuperar numa noite o esforço do dia anterior. O viver de objetivos e no limite pode nos condicionar. Apesar deste raciocínio e de ser a mente a limitar-nos e não o corpo, tudo surgiu por ter feito um entorse no tornozelo. Talvez pela descontração e relax que aqui vivi. Sem grandes preocupações e feliz. Verdadeiramente por estar a contribuir e de certo modo a viver um sonho.
Assustei-me pois parecia que nunca tinha feito um entorse tão grave. Pensei que tivesse partido o pé. Fui forçado a parar e apesar de querer ir ao hospital, acabei por não ir. Tudo isto ajudou a que a dor do joelho passa-se. Passados dois dias percebi que não deveria ser tão grave. Descansei durante quatro dias, dei muitos mimos ao pé (gelo, pomada) e após esses dias voltei ao trabalho com todos os cuidados, como se de fisioterapia se tratasse.


Após a construção da parede de pedra, tinha como objetivo ajudar na construção das paredes em fardos de palha e nos rebocos. Assim aconteceu naturalmente. Nesses dias empenhei-me a fazer e aprender o máximo. Foi intenso mas maravilhoso ver a crescer as paredes, a passar os dias e perceber o detalhe deste tipo de construção. Apesar do cansaço, por vezes custava parar. Também por sentir que deveria ir, continuar a viagem.
Houve reforço de equipa (voluntários) e plano de avançar para se terminar o mais possível. Dias intensos, mas felizes e de convívio. Comecei então a pensar mais a sério em um novo projeto e terminar o que me tinha proposto finalizar, os rebocos em cal.
Foi também nas ultimas semanas que recebi a notícia da morte da minha querida avó Conceição. Alguém que me marcou muito na minha vida, pela sua descontração, sorriso e energia. Alguém de quem eu sinto que herdei mais do que aquilo que sei. Alguém que se manterá viva em mim, pela sua simplicidade e grandeza.


Foi em Lismore que me senti em casa, feliz, com dias intensos, voltei a ver cordeiros a nascer, numa imensidão de natureza, mas sabia que teria que continuar. Custa-me sempre mudar de projeto. Cria-se sempre alguma ansiedade, não pela mudança ou desconhecido, mas por mais uma vez ter que criar formas de comunicação. Isto porque o inglês anda sempre mais devagar, que eu próprio. Por preguiça e adversão.
Se tiver oportunidade voltarei a este sítio e conhecerei mais esta zona da Escócia que é maravilhosa pela sua monumentalidade paisagística. Sou grato a tudo o que aqui vivi, pois permitiu-me perceber da minha invencibilidade e que nem sempre conseguirei controlar/ moldar as coisas como eu quero. Conhecer os limites e tornar consciente a importância do culto da mente sobre o corpo. Valorizar cada vez mais, com presença as pessoas que por nós são queridas e uma referência. Viver para além da materialidade.



Até já Utopia!
(19-04-17)

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