Senti uma
vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor
não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o
controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa
gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular –
essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse
possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que
não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e
vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para
que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar
de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos
talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas
mãos.
in "Fazes-me falta" de Inês Pedrosa
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